Cinema - Cultura - Comportamento
MY BLUEBERRY NIGHTS. França, China, Hong-Kong, 2007. De Wong Kar-wai. Com Norah Jones, Jude Law, David Straithairn, Rachel Weisz, Natalie Portman. Europa. Projeção: 2.35:1. 90 min.
Wong Kar-wai é um diretor criticado por fazer da marca estética uma prisão para o que quer que aconteça nas histórias que narra. Tudo está subordinado a uma noção maior e centralizadora de beleza, de criar planos de visual impactante e fazer deles a razão de ser do filme. Pós-modernismo exacerbado, elevado à potência máxima. Ao mesmo tempo, o cineasta encantou muita gente com sua hábil mistura de ingredientes nada originais, mas que resulta num estilo bem pessoal, e de certa forma original.
Com Um Beijo Roubado, o cineasta filma os EUA, após ter rodado seu melhor filme, 2046. Sobre ele alguns críticos escreveram equívocos como "ele está se repetindo", ou "um Wong Kar-wai para iniciantes", ou "a América não lhe fez bem". Como muito bem escreveu Cássio Starling Carlos, na Folha, repetir-se não é um defeito a priori, e muitos autores de respeito (ele cita Hitchcock, Cronenberg e Truffaut, entre outros), fazem da repetição, ou melhor, da recorrência de temas, a força de suas assinaturas. Cássio também afirma, com toda a razão, que sair do ambiente a que o diretor estava acostumado fez bem ao seu cinema, expandiu seus horizontes e permitiu uma maior movimentação dentro de seu próprio universo. Após o ápice atingido em 2046, foi necessário uma renovada de ares, semelhante à que fez depois de Anjos Caídos, quando foi filmar em Buenos Aires.
Por incrível que pareça, e por mais paradoxal que seja, Um Beijo Roubado se aproxima muito mais esteticamente de 2046 do que gostariam seus detratores. O cuidado absurdo com a construção espacial atingido no filme anterior está todo aqui, nos enquadramentos em scope que aprisionam os personagens em cantos da tela - geralmente com eles olhando para as bordas mais próximas, um extra-campo que é quase tudo que está para o lado que eles olham -, com cores fazendo um festival de borrões delirantes no restante do quadro. Seu trabalho com o enquadramento continua impressionante, criando recortes nos quais os personagens tentam se encaixar, com os objetos desfocados dominando o quadro, e a mesma obsessão por relógios de parede.
Se com 2046 Wong Kar-wai tornou-se verdadeiramente um diretor de imagens impressionistas, com Um Beijo Roubado ele registra suas impressões sobre a América como faria Pissarro ou Matisse se tivessem uma câmera no lugar do pincel. O efeito de desaceleração da imagem que ele usa desde o primeiro filme contribui para essa filiação com a pintura impressionista. Mas também o fato de que ele parece ter se encantado com a luz do deserto americano a tal ponto que deixou-se dominar por essa luminosidade que reforça a tonalidade das cores quentes, causando um contraste interessante com a ambientação chique e charmosa que seus filmes geralmente têm.
O filme também foi acusado de ser um pastel de vento, ou seja, oco de sentidos, sem história bem construída. Ora, em seu cinema a história sempre esteve em segundo plano, intuída pelos atos e erros dos personagens. O que não significa que não haja uma história. Ela está ali, em Um Beijo Roubado, talvez mais aparente do que nunca. É a história de uma mulher que consegue superar um trauma vivendo de pequenos empregos em várias cidades americanas, no decorrer de quase um ano. De corações que se unem para remediar os estragos, feridas que se cicatrizam pelo contato humano, por sentir a dor de outros. Nesse sentido o personagem chave é Arnie (David Straithairn), principal responsável pelo início da recuperação de Elizabeth (Norah Jones, em sua estréia no cinema). Ele faz um guarda que ainda quer reconquistar sua esposa Sue (Rachel Weisz). Sua dor é tão intensa, tão cheia de humanidade, que toca Elizabeth de uma maneira muito forte. É muito bonita a cena em que ela observa, assustada do lado de fora da janela com o neon, Travis (chefe e dono do bar onde ela trabalha, interpretado por Frankie Faison) tentando acalmar Arnie, depois que este espancou o novo namorado de Sue. Como Elizabeth, nada ouvimos. Apenas vemos a conversa dos dois por trás de uma luz avermelhada e desfocada na tela. Essa experiência de se condoer da dor de Arnie, irá aproximá-la também de Sue, como um anjo da guarda que cicatriza feridas profundas no coração dos outros.
Como última etapa de sua própria ascenção, ela irá encontrar Leslie (Natalie Portman), uma menina mimada que joga poker e se esconde de um confronto maior com o pai, a quem ama, mas a quem não compreende, e não sabe se fazer compreendida. Essa é a parte em que o filme dá mais a cara para bater. Indo para o espaço aberto do deserto (agora Elizabeth está nas imediações de Las Vegas), a noção de espaço do cineasta teria um desafio maior que o das ruas estreitas e cômodos apertados de Hong Kong, do qual ele já estava acostumado. E ele se sai bem, explorando o horizonte em planos abertos de cores berrantes, um espaço enorme para Elizabeth e Leslie partirem para um promissor futuro.
Há, ainda, uma provocação para os que o acusam de fazer perfumaria publicitária, como na cena em que Leslie reforça o desejo de Elizabeth em ter um carro. A câmera passeia pelo carro de Leslie como quem quer vender um produto, com uma música sensual na trilha. Mas esse produto está realmente à venda, ou, melhor dizendo, em jogo. É a garantia oferecida para que Elizabeth empreste um dinheiro para que Leslie volte à mesa de poker. Wong Kar-wai se apropria de um dos maiores sonhos de consumo do americano médio para incitar seus detratores. E consegue fazer com que sua provocação esteja muito bem inserida na trama, o que nem sempre acontecia com seus exercícios de estilo anteriores (mais notadamente em Amores Expressos e Anjos Caídos).
A partir do relacionamento com Leslie, Elizabeth fica pronta para retornar a Nova York, encarar uma relação fracassada de frente, e partir para outra, com Jeremy (Jude Law), que no começo do filme era apenas um boboca com aquela história de guardar as chaves, e no final se revela uma pessoa vulnerável, com um coração tão frágil. O encontro dele com sua ex-namorada Katya (Chan Marshall, ou Cat Power, radiante e bela no papel) é um primor de encenação, quase todo visto de dentro do café, com eles conversando do lado de fora. Eles conversam sobre chaves e portas fechadas. Sobre estar ou não disponível. "Você está linda", diz ele. "Estou cada vez mais parecida com minha mãe", responde ela. "Melhor do que se parecer com o pai, já vi fotos dele", completa Jeremy. Nesse pequeno encontro há o confronto de Jeremy com o passado. Confronto do qual ele e Katya saem vitoriosos. O espelho da cicatrização no coração de Elizabeth. Ele, como ela, estaria definitivamente pronto para iniciar outro relacionamento. O Wong Kar-wai que vemos em Um Beijo Roubado não é mais aquele artista desiludido com o amor. Também não é somente um cupido, mas um habilidoso promotor do encontro entre anjos.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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