Cinema - Cultura - Comportamento
Roteiro e arte de Howard Chaykin
por Filipe Furtado
Pergunta: Você já se vendeu, e se sim, se arrepende?
Resposta: Quadrinhos é um meio comercial onde ocasionalmente trabalhos interessantes são feitos, com freqüência apesar deles mesmos. É uma pergunta sem sentido.
Howard Chaykin
Black Kiss é uma revista suja. Esta última obra-prima na impressionante série de trabalhos de Chaykin nos anos 80 ( American Flagg, O Sombra, Falcão Negro , etc.) não apenas trabalha com material de baixo calão como se embebeda nele, mergulha com tesão na sujeira. Um texto que fizesse justiça ao tom que Chaykin sustenta ao longo de Black Kiss seria impublicável. O que começa como um aparente pequeno conto pervertido de pornografia noir se aprofunda mais a cada capítulo na obscenidade.
O tom é estabelecido na primeira seqüência, quando "ouvimos" a gravação da secretária eletrônica da protagonista: “ Hello lover... this is Dagmar and I love to suck your dick. I'd love to talk to you, but I can't come to the phone right now because I'm just showing some lucky guy just what five feet seven inches of natural blonde heat can do that to a man, And I do mean seven inches. I'm long legged blue eyed, sex hungry little tramp – and all I can think of is your fingers running up my seams –manhandling me the way you know I love it. Doctor feel-so-very-good has put me on a strict diet of a cup of come a day – and I'm so very thirsty…So please leave your number and I'll get back to you just as soon as I can. Now don't forget me—that's Dagmar—the girl with something special". Eu não estou tentando implicar que Black Kiss é uma revista que exista somente para excitar o leitor, muito pelo contrário. Se é verdade que ele não nos nega nem mesmo ejaculações e que nenhum dos seus doze capítulos de dez paginas transcorra sem que algum tipo de ato sexual seja perpetuado, é visivel também que a obra de Chaykin tem vários objetivos. A pagina inicial diz muito sobre como Chaykin trabalha: a primeira vista não há nada acontecendo aqui a não ser a mensagem, de maneira que quase somos incentivados a ignorar a arte entorno dos balões. Mas tudo que Chaykin inclui nesses quadros (o pôster do filme antigo, os gatos) é essencial para compreendermos onde ele está indo. Ainda mais importante é a estrutura provocativa da cena que antecipa o pêndulo estrutural em que a revista toda se sustenta (voltaremos a isso daqui a pouco). Black Kiss é um pouco como uma versão pornográfica de um filme de Brian De Palma, deliciada com a própria sujeira, apaixonada pelos seus anti-heróis imundos, e com uma relação metalingüística de amor/ódio pelo seu meio.
Black Kiss tem dois temas centrais: a industria cultural e a inter-relação entre sexo e violência, dois dos principais produtos que a primeira vende. Sua trama super-elaborada envolve uma prostituta chamada Dagmar, que é amante de uma antiga e muito bem conservada estrela de Hollywood, Beverly. Elas precisam recuperar um filme pornô estrelado por Beverly e para isso acabam recrutando um musico de jazz azarado, Cass Pollock, que está sendo perseguido pela Máfia e pela policia, que suspeita que ele seja responsável pelo assassinato da mulher e da filha. Na hora do crime, ele estava recebendo um sexo oral de Beverly, portanto elas prometem servir de álibi para o cara desde que este recupere o filme. O que interessa a Chaykin é a reação do leitor à gratuidade das trepadas e explosões de violência e apontar como a industria os comodifica. Tudo em Black Kiss está a venda de uma forma ou de outra. Sua trama é uma degeneração de muitas outras, cada personagem e objeto apresentado é isolado e coisificado para consumo rápido (a revista foi originalmente publicada em edições de dez paginas).
Quando fala de industria cultural, Chaykin usa Hollywood – a sua representação principal no nosso imaginário, afinal –, mas é bem claro que tem em mente antes de tudo a industria dos quadrinhos. Quando realizou Black Kiss , Chaykin era sem dúvidas um dos maiores representantes dessa indústria, e era também um homem cansado. Um artista que alcançou fama justamente como um provocador que aumentara a quantidade de sexo e violência dos quadrinhos no período, mas para o qual tal rótulo era um problema. Um homem cansado justamente de ser coisificado por uma indústria que se aproveitara muito bem do crescimento do conceito dos “quadrinhos de autor” e rapidamente transformou também eles em maquina de produzir salsicha. “Howard Chaykin vende, Howard Chaykin é sinônimo de muita violência e homens fortes e mulher com pouca roupa”. Black Kiss neste cenário foi um grande fôda-se para a indústria (e vale dizer que Chaykin diretamente traça paralelos ao longo da revista, inclusive transformando os membros de uma seita de tarados pervertidos num óbvio stand-in para fãs de quadrinhos). Uma revista onde as tendências que haviam sido identificadas como suas marcas são puxadas para além dos limites daquilo que seria aceitável para os padrões da mesma industria. Trata-se claro de um fôda-se profundamente cínico. Chaykin tem plena consciência de que a polêmica em torno da revista estava destinada a lhe garantir algum tipo de sucesso e ele não deixa de se colocar como um produto (um ano antes sua revista-assinatura American Flagg havia sido relançada como Howard Chaykin's American Flagg numa última tentativa de lucro fácil, o que só reforça a maneira como Chaykin neste ponto se tornara uma grife, um produto). Pouco depois de Black Kiss , Howard Chaykin fugiu dos quadrinhos e foi se exilar na televisão, onde permaneceu por anos.
O que torna este ataque às boas sensibilidades da industria cultural extremamente bem sucedido é a arte de Chaykin. O sucesso do artista nos 80 visto hoje não deixa de ser estranho. Chaykin, assim como Frank Miller, tem um traço estilizado que passa muito longe daquilo que a maior parte dos fãs de quadrinhos tem em mente como uma arte bonita. Chaykin é o anti-Jim Lee, sua arte é de um maravilhamento brutal. Anti-séptica, grosseira, grandiosa. Seus homens são grandalhões e fortes e suas mulheres boazudas, mas ambos estão longe de ser atraentes no sentido clássico. O que impressiona em Chaykin é sua habilidade como narrador visual, seu feeling para layout que garante a cada página um dinamismo único. Foi isso que fascinou em American Flagg em primeiro lugar, não o sexo e a violência. E é de novo isto que impressiona aqui. Mas a arte de Chaykin preenche perfeitamente as preocupações temáticas de Black Kiss . No preto e branco da revista, ela se torna ao mesmo tempo que excitante, de uma pobreza miserável. Black Kiss apresenta a industria cultural na sua periferia, detritos jogados fora e a arte de Chaykin o complementa perfeitamente.
Como eu disse antes, provocação é a chave para o que Chaykin está tentando aqui, portanto preciso neste últimos dois parágrafos discutir algumas reviravoltas, logo quem se sente desconfortável lendo spoilers é melhor parar por aqui. Há dois grandes segredos guardados em Black Kiss e Chaykin apresenta eles no timing exato para desconcertar o leitor. O primeiro é que Dagmar é um transexual. Uma revista genuinamente sensacionalista jogaria isto na cara do leitor, já nas primeiras paginas, mas Chaykin guarda a revelação até metade de Black Kiss ; não só isso, mas o revela ao fim da mais longa e detalhada trepada da série, numa altura em que o leitor já construiu uma longa relação com a personagem, e principalmente já foi levado a acompanhá-la em vários atos sexuais. A partir desse ponto, sexo já não tem a mesma graça na série e o gênio de Chaykin é que isto em parte tem pouco a ver com o segredo no meio das pernas de Dagmar (a estratégia da estrutura da série desde o principio parte da progressiva saturação), mas ao posicionar a revelação no perfeito ponto de virada da série, ele obriga o leitor a questionar até que ponto a revelação está se colocando entre ele e a revista. Black Kiss não deixa de ser a perfeita destilação da idéia de sexo como produto: depois da ejaculação, começa-se a questionar se o preço valeu a pena.
A outra surpresa que Chaykin nos guarda – e apresenta já bem próximo do fim – é a verdadeira natureza de Beverly. Nossa conservada estrela de cinema, não é conservada só porque fez um monte de cirurgias plásticas. A moça é uma vampira. Esta irrupção do sobrenatural no clímax de Black Kiss é outra bomba sobre o leitor, mais um exemplar da estratégia da provocação que leva numa direção muito diferente daquela que ela promete. Ao mesmo tempo a revelação faz todo sentido dentro da lógica da série: Black Kiss desde seus primeiros capítulos já se afirmava como um conto de horror hollywodiano, uma espécie de Crepúsculo dos Deuses pobre. Entrar no terreno do sobrenatural só complementa esta idéia; e vampiros são perfeitos para isso, já que vampirização da imagem de seus atores sempre foi um dos alicerces de Hollywood (assim como a de seus super-heróis mais famosos é da industria dos quadrinhos americana). No seu clímax explosivo, Chaykin nos oferece tudo de uma só vez: diferentes formas de violência e humilhação sexual, uma puta/pretensa starlet tentando se torna em definitivo uma cópia de sua estrela hollywoodiana e até uma personagem cuja função é essencialmente servir de representante do leitor em cena. Black Kiss basicamente se desfaz pela própria sobrecarga dos seus elementos, quando na última pagina temos uma quase reprodução da primeira nossa relação com aquelas imagens e outras, já não sentimos como se Chaykin estivesse simplesmente nos provocando e oferecendo uma excitação fácil.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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