Bodas de Papel

(Brasil, 2008). De André Sturm. Com Helena Ranaldi, Darío Grandinetti, Walmor Chagas. Pandora. Projeção: 1.85:1 100 min



Um discurso recorrente na década diz respeito às co-produções entre países latinos. O objetivo seria democratizar a produção e diminuir assim a influência de Hollywood. A verdade é que o espectador brasileiro, em média, mal conhece o próprio cinema e que dirá dos países vizinhos. As tais produções em parceria foram até realizadas, como ainda o são, mas desde a gênese do projeto esqueceram do principal: a qualidade. Os projetos são inúmeros e voltados para o cinema de gênero desde Perigosa Obsessão , de Raúl Rodriguez Peila, até Sexo com Amor? , de Wolf Maya, que é uma refilmagem de uma comédia chilena. O romance Bodas de Papel , segundo longa de André Sturm, vem se juntar, inclusive no fracasso, a essa tentativa ao mesclar uma história romântica entre uma brasileira e um argentino.

Ao se aliar a dois escritores, Adriana Lisboa e Flávio Carneiro, o cineasta Sturm procurou dar a seu projeto um caráter refinado, ao menos nos diálogos, apesar da proposta ser francamente comercial. E isso acabou por não ser positivo e serviu para evidenciar ainda mais a fragilidade cênica e dramatúrgica: a narração em off quando não é empertigada, como na abertura, é redundante; tanto que ela desaparece. A opção inicial é a de construir um romance que se aproxime do clássico, como na obra-prima As Pontes de Madison , de Clint Eastwood, em uma descrição dos acontecimentos para sublinhar o acaso e o nascimento de um sentimento arrebatador. Nota-se também que os roteiristas estudaram com afinco a essência do melodrama e apenas enfileiraram suas características particulares, como a música-tema do casal e um objeto que remeta ao amor, para que tudo desembocasse em uma narrativa emotiva. Entretanto, os tons esmaecidos da fotografia para unir os dois tempos narrativos, passado e presente, só retiram a vivacidade de uma história que não consegue gerar o menor interesse no espectador.

Além da direção de elenco irregular, Sturm nunca encontra uma relação especial entre câmera e personagem. Parece sempre à espera de que algo aconteça e se revele em movimentos de câmera despropositados: a personagem Nina atende ao telefone e de repente vai para a janela onde há um corte brusco de mudança de movimento; o casal conversa na cozinha e a câmera fica a passear de um lado ao outro só desfocando do propósito principal da cena.

A música operística dos créditos iniciais, o casal perfeito e a tragédia. O esforço e a vontade dos envolvidos na produção é para tornar a obra inesquecível. Mas ninguém vai se lembrar de Bodas de Papel ao término da projeção.

Leonardo Luiz Ferreira
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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