O Sonho de Cassandra

CASSANDRA'S DREAM. (EUA/Inglaterra, 2007). De Woody Allen. Com Ewan McGregor, Colin Farrel, Andrew Howard, Hayley Atwell. Projeção: 1.85:1. 108min.



Joseph Losey realizou um filme perturbador ao encenar a dependência entre um aristocrata britânico e seu mordomo em O Criado, de 1963. O filme é uma obra-prima e Joseph Losey era norte-americano. Essa é somente uma constatação de que o olhar externo sobre as ambivalências da relação entre as classes sociais não parece ser um trabalho para os cineastas britânicos, já que os que adoram se debruçar nas agruras da relação (e da luta) entre as classes (Loach, Leigh), caem sempre nos velhos clichês de um cineminha de esquerda reformista, perdendo de vista o drama humano e trocando a crítica pela demogogia.

O americano agora é Woody Allen. Em O Sonho de Cassandra ele muda não só alguns objetivos essenciais do que vem fazendo nos últimos anos (uma série de deboches auto-depreciativos redundantes), como reorienta seu belo trabalho na Inglaterra.

Algo a se notar: em O Sonho de Cassandra, ele sai do seu mundinho intelectual-judeu-burguês-nova-yorkino (não exatamente nessa ordem e nessa configuração) para realizar um estudo de caso em um meio social absolutamente distinto daquele no qual deita e rola, seguramente, desde sempre. Ele se arriscou e a despeito de alguns acidentes, realizou uma inesperada e infame crônica sobre o comportamento e o arrivismo da classe média baixa londrina.

Na primeira cena Allen vai direto ao ponto ao fazer uma objetiva observação do imaginário dos personagens: Terry (Colin Farrell) e seu irmão Ian (Ewan McGregor) barganham com um vendedor um barco velho e barato, mas que tem certa austeridade. Ian comenta com o irmão que o barco parece mais novo do que é e, numa postura blasé , fazem negócio com o vendedor reclamando do preço. O nome do barco é “Sonho de Cassandra”. Pronto. Com essa rápida introdução já foi dado o tom da trama, uma prévia do conflito, e traça, sem meias medidas, o destino dos protagonistas. Allen se aplicou a um trabalho de síntese, bem diferente das digressões verbais e farsescas a que estamos acostumados em sua obra. Como em Claude Chabrol, toda secura é também crueldade. Não há uma relativização de ponto de vista que faria com que o distanciamento incitasse em nós, raiva, piedade ou desprezo. A primeira parte de O Sonho de Cassandra é um exercício de crueldade porque não proporciona nenhum alívio na caracterização dos personagens e desse universo, se eles descem baixo, é de lá que devemos observá-los.

Ian, Terry e seus familiares não são monstros estereotipados, mas deformidades sociais (a classe média), duros financeiramente, não querem ser pobres, sonham em ser patrões. Na impossibilidade imediata de progredirem socialmente, vale, portanto, a aparência.

Ian e Terry vivem se “ajeitando” para melhorar de vida. Terry é um mecânico casado e viciado em jogo, ganha dinheiro com a velocidade que perde, e com pequenos rendimentos dá presentinhos para sua esposa. Ele se contenta com pouco e veremos mais a frente que isso será um grave erro, uma “fraqueza”. Também empresta carros da oficina para seu irmão Ian, que posa de empreendedor bem sucedido do ramo de hotéis (seu sonho é dirigir hotéis em Los Angeles) e se apaixona por Angela Stark (Atwell) uma atriz que também deseja “subir na vida”.

Nesse quadro aparece o tio rico e os dois irmãos, como de costume, vestem seus ternos e lhe pedem uma ajuda financeira. O tio, generoso e solícito, ouve com atenção, mas revela uma pedra no sapato que é um homem que pode prestar depoimento e fazer uma denúncia contra ele, o que envolve diretamente todo o patrimônio que construiu. A condição é que os sobrinhos desaparecem com o cara para que o tio possa conservar seu patrimônio, investir nos hotéis de Ian e pagar a dívida de jogo de Terry. Uma chantagem que ele faz parecer um favor familiar, “uma mão lava a outra”, como se costuma dizer.

Aí temos um crime. Do crime, a culpa e a necessidade de que existam outros “sumiços”, por causa do medo das evidências. Do alpinismo social à tentativa de conservar as aparências, e o mais patético é que as aparências são somente isso, aparências. Têm um fundo falso. A moeda de troca (no caso de Ian) para conservar as “possibilidades” de ascensão e dos laços que construiu por meio dessa imagem falsa que projetou pra si, é dar cabo de uma relação, de um laço sólido e real.

O filme é realizado em três atos e existem problemas nada desprezíveis na passagem de um para outro, porque e mudança de tom é um tanto brusca. Mesmo assim, a crônica de Allen tem crueldade o suficiente para não cair em um exame exasperado de patologia social, algo que somente poucos cineastas (Luis Buñuel e o Hitchcock de A Sombra de uma Dúvida) sabem fazer, e se a histeria de Terry, típica dos personagens de Allen - algo que parece uma tentativa de imprimir uma marca do autor – parece desmedida, felizmente não chega a atrapalhar.

No geral, abrindo mão de sua marca de autor, o velho Woody Allen fez um filme forte e com sua trama de crime banal, de motivações mesquinhas e tragicamente patéticas, fez seu melhor filme desde Tiros na Broadway.

Francis Vogner dos Reis

Filmografia Comentada

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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