Cinema - Cultura - Comportamento
(Brasil, 2007). De Lais Bodanzky. Com Maria Flor, Paulo Vilhena, Tonia Carrero, Cassia Kiss. Projeção: 1.85:1. 92min.
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Toda a estrutura dramática de Chega de Saudade é moldada para nos fazer crer que as situações ali apresentadas refletem um universo mais amplo do que os 90 minutos de filme conseguem comportar – ou seja, tenta-se transmitir a idéia de que aquele baile de terceira idade que toma algumas horas na vida dos personagens é retrato mínimo de uma amplitude relativa a todos os tradicionais bailes dessa estirpe. Porém, o que tira do filme a possível aura de autenticidade, ou mesmo o senso de realidade, buscados pela diretora Laís Bodanzky é justamente aplicar, naquele pouco tempo, esquematismos de roteiro e de encenação que fazem com que a ação apresentada, antes de ser um instante, torne-se um algo definitivo e fechado em si mesmo.
Chega de Saudade , portanto, torna-se um paradoxo. Se, no sentido do todo, ele quer funcionar do micro para o macro, na forma de se apresentar através de imagens, sons e palavras, prende-se ao micro. E esse micro não guarda atrativos suficientes para tornar-se realmente passível de maiores interesses e nem qualquer tipo de diferencial que atraia a atenção para além das banalidades dos conflitos exibidos. O filme, assim, nos soa esquizofrênico, perdido dentro de suas próprias ambições, porque quer fazer-se arte do humano, da sensibilidade, das relações, mas apenas raspa nisso tudo e acaba virando um exercício de auto-exibição das capacidades técnicas dos realizadores e do talento de seus atores.
Muito dessa impressão estranha transmitida por Chega de Saudade deve-se menos às tentativas de Bodanzky de transmitir humanidade com a câmera do que de seu roteirista, Luiz Bolognesi, transmitir o mesmo tipo de humanidade com palavras. A obviedade dos dramas de Chega de Saudade por vezes soa gritante na medida em que o filme se desenvolve. Estão lá os tipos mais básicos do filme-coral – o marido mulherengo, a mocinha que se descobre mulher, o rapaz ciumento, a dondoca solitária, o casal de idosos em crise. São variações dos mesmos tipos já devidamente esgotados por diversos tipos de cinemas no mundo todo.
Pode-se alegar (e com justiça) que tal mosaico forma um pequeno universo das personalidades humanas mais típicas. Sim, exatamente. E é também exatamente por isso que Chega de Saudade nos parece tão fora do lugar. Porque não basta haver em cena reflexos humanos, figuras retiradas do mundo real com todas as suas complexidades envolvendo afeto e angústia. Há necessidade de saber trabalhá-los dentro da proposta dramática (muito mais que narrativa), colocá-los em contato e em conflito com o ambiente, com os corpos presentes, com o universo ao redor. Para tanto, o simples "estar presente" não necessariamente significa "estar atuante". Da forma como Bodanzky e Bolognesi constroem sua singela mitologia de encontros e desencontros, o que sobram são mais fantasmas do que pessoas, mais bonecos do que humanos, mais ganchos dramáticos do que a tão buscada verdade verdadeira. No fim, resta o vazio, um vazio muito mais profundo do que o do salão de baile após uma noitada como outra qualquer.
Marcelo Miranda
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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