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CUM MI-AM PETRECUT SFARSITUL LUMII. (Romenia, 2006) De Catalin Mitulescu. Com Doroteea Petre, Timotei Duma. Pandora. Projeção: 1.66:1. 106 min.
Nas imagens do filme, não há sangue nem armas no fim da ditadura de Nicolae Ceausescu. Tampouco há festa após a queda do regime opressor. Imagens que mostram o movimento da massa popular (imagens generalizantes, e também clichês) chegam até nós mediadas pela televisão da casa dos personagens. Quando oficiais do governo aparecem em quadro, a encenação dedica-se a criar o efeito de distanciamento. A violência nunca é gráfica, evita-se a clássica abjeção que seria embelezar (via cinema) as atrocidades e lutas que ocorreram no ano de 1989 na Romênia. A violência opressora paira no ar, assim como o gozo pós-fim da ditadura ocorre de maneira silenciosa e desconfiada. O filme se dá dessa maneira, desconfiado dos fatos oficiais (por mais recentes que estes sejam), e com ojeriza por imagens já dadas em outros filmes que retratam ascenções e quedas de governos ditadoriais. Como Festejei o Fim do Mundo deixa fora de quadro as imagens esperadas, preocupando-se mais em jogar luz sobre algumas vidas simples.
Inversamente, procura injetar dentro do quadro pedaços de vida. Trabalhando num registro naturalista com espaço para o “lúdico não fantasioso” (o velho louco, a vizinhança, as crianças e suas brincadeiras), o filme, apesar de possuir uma narrativa que avança e conta uma história (a trajetória da heroína Eva), procura atenuar os efeitos imediatos do drama. Utiliza para isso ferramentas contemporâneas como “tom de cotidiano” dado às cenas, elipses (discretas), fragmentos de atos aparentemente banais, personagens imersos em sua existência simples, cenografia e locações austeras e naturais. Se o dramático encontra-se “abafado”, são os personagens que ganham em evidência na tela. Importa menos a trajetória narrativa de Eva do que a maneira com que ela, seu irmão Lalalilu, sua bela e triste mãe e seu pai rigoroso se comportam e reagem diante das circunstâncias. Reações sem heroísmos, justamente por que impregnadas de verdade.
O que mais preocupa a mãe não é o fim iminente do regime, mas, sim, o desejo latente de fuga cultivado pela filha Eva. O pai, apesar de guiados por questões políticas, possui como preocupação maior a vigília de sua filha. Lalalilu e seus pequenos amigos brincam de “caça ao ditador”, mas é mais valiosa a sensibilidade e encanto que emana das brincadeiras infantis do que o significado simbólico propriamente dito. A cena da festa no jardim da família, marcante, encontra sua força na coleção de planos próximos dos personagens que se olham, que flertam entre si. Pois, ao final, o que fica de Como Festejei o Fim do Mundo é o efeito cinematográfico de vida gerado por suas imagens.
Para não ficarmos muito no abstrato de palavras como “vida” e “humanos”, busquemos os métodos usados para criar tais sensações. Além da dramaturgia discreta e das elipses, além do naturalismo da direção de atores, o elemento crucial do filme é a concepção de câmera de Catalin Mitulescu: evita-se a estilização (com exceção de momentos onde oficiais aparecem), evita-se um rigor excessivo na construção dos espaços e da decupagem. A câmera despojada, na mão, ou no tripé solto, facilita nossa imersão nos espaços. Os cortes transparente privilegiam a emoção ao invés da informação. A mescla de cenas longas com momentos curtos nos causa uma saudável sensação de leve desorientação. Tudo isso cria uma aparência de desorganização, de caos ambíguo que é a simples existência.
Inevitável não ter uma sensação estranha de que o filme é “pequeno” e modesto. Isso se dá pelo já comentado mecanismo de “atenuação” do drama (no sentido clássico, ao menos). Após assistir Como Festejei o Fim do Mundo, aprende-se muito pouco sobre o período histórico em questão. Na verdade, não aprende-se nada. Ficam na memória imagens de rostos, brincadeiras e jogos, festas, refeições de família e outros momentos pequenos. A opção por privilegiar o elemento humano, neste caso, pode ser vista não só como verdadeira política, mas também como sabedoria do filme em evitar discursos e análises mais enfáticas, uma vez que os acontecimentos tratados ali são muito recentes (menos de 2 décadas atrás). Estamos falando de qualidades como paciência, curiosidade pelos personagens, encanto do olhar e desejo de vida. A História oficial corre fora de quadro (contaminando o que está dentro, é verdade). Mas a câmera de Catalin Mitulescu se contenta em reter momentos de seres humanos, o que já é muito.
Fernando Watanabe
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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