Condor

(Brasil, 2008) De Roberto Mader. Lumière. 103 min.



A importância do tema em um documentário parece nortear a maioria dos realizadores muito mais do que a questão da forma. Por um lado, há o fascínio em relação a um personagem e na tentativa de seu registro fiel; por outro o compromisso de documentação histórica. Essas duas vertentes têm limitado diversos trabalhos em que a fidelidade ao conteúdo ou ao entrevistado acabam por estabelecer a estética da obra e aprisioná-la em um universo padronizado. O espectador já sabe o que vai encontrar em um blockbuster, como Homem de Ferro, de Jon Favreau, e, por mais estranho que pareça, também em documentários apenas com a leitura do título e sinopse. Há claro exceções, sobretudo em diretores que buscam experimentar e construir uma filmografia sempre aberta para novos horizontes, entre eles Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Kiko Goiffman...

Condor, de Roberto Mader, parte de um argumento simples: revisitar os episódios da Operação Condor nos países da América Latina. E é uma proposta válida, em especial, pela falta de material e debates sobre a temática nos dias de hoje. Aqui no Brasil mesmo não se discute sobre esses fatos bem como não se “enterraram os ossos”, como um entrevistado afirma, da ditadura militar. Porém, ao delineamento da premissa se embutiu um formato clássico do didatismo do gênero: Condor é entremeado por imagens de arquivo e as inúmeras “cabeças-falantes”. Tudo correto, assim como tantos outros registros documentais, só que como cinema é pouco. A preocupação por uma longa pesquisa é louvável desde que contribua para a construção de uma reflexão, o que, nesse caso, é reduzida devido a pouca dialética nas entrevistas. Há que se aprender a ouvir e também a argumentar na presença dos entrevistados.

A longa duração (103 minutos) é bastante prejudicada pela opção de uma trilha sonora, assinada por Victor Biglione, desnecessária, que sublinha o que não se deve e é um artifício fácil para afetar o emocional. Dessa forma, Mader acabou por permitir que parte da assinatura da obra seja do músico, o que não foi uma escolha feliz.

Leonardo Luiz Ferreira

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

Para comprar os números antigos da versão impressa, clique aqui.