Crying Freeman

Roteiro de Kazuo Koike
Arte de Ryoichi Ikegami
Panini 13x18cm. 10 Volumes. R$9,50



 

Durante muitos anos os aficionados por quadrinhos que não tiveram oportunidade para adquirir as edições importadas de Crying Freeman foram obrigados a esperar que alguma editora publicasse esse material no Brasil. Além de muita paciência restava ao leitor conforma-se com os primeiros volumes publicados no passado pela editora Nova Sampa que tem seu mérito, pois foram feitas a partir das edições norte-americanas e seguiam o modo de leitura ocidental. Eram edições bem feitas e mesmo após tanto tempo, uma vez devidamente acondicionadas, envelheceram com dignidade. Quando a Panini divulgou a publicação deste título a comoção tomou conta dos fãs de manga, principalmente dos mais jovens, que finalmente poderiam ler a obra completa, contudo, agora os tempos são outros.

Crying Freeman é uma excelente série policial com elementos de ação e lutas sobre-humanas que mostra o treinamento e formação do melhor assassino da máfia chinesa que após eliminar suas vítimas se derrama em lágrimas. Isso acontece porque ele não desejava ser um assassino, mas foi capturado e obrigado a seguir esse caminho. O mais interessante é que a medida que a série avança, Freeman esquece esses pudores morais e passa a aceitar de braços abertos seu destino, massacrando todos os seus adversários e consolidando o poder da máfia chinesa no mundo.

É possível dizer que esta série foi premonitória em destacar o papel que a China representa no cenário mundial atualmente. Criada nos anos 80 a série ainda tem fôlego e mostra outra importante característica de uma boa história em quadrinhos, ser atemporal. Para completar o pacote o leitor desfruta de várias cenas de nudez e sexo quase explícito envolvendo mulheres de várias etnias, sangrentas cenas de lutas e massacres em geral, além de vários equipamentos militares e armas em profusão pelas páginas da revista.

Com certeza isso tudo deve ter afetado a senhora Elza Keiko a editora deste mangá que deixou passar um erro de revisão: no volume 02 página 34 somos apresentados ao personagem Lei Qi Long (cuja tradução é “os 7 dragões que choram”), justamente o responsável pela programação mental que criou o assassino Crying Freeman e que depois desapareceu durante a série. A partir do volume 03 na página introdutória que abre cada edição e onde os personagens da saga eram apresentados para novos leitores, esse mesmo personagem era mostrado como sendo Long Fu (“o pai dragão”) um personagem mais importante presente em quase todas as edições. O mais dramático é notar que este erro não foi detectado e perdurou até a última edição.

Como não se importam com a opinião dos ocidentais sobre seus quadrinhos, os japoneses fazem toda sorte de exigências para liberar a publicação dos mesmos. É lamentável que eles não apliquem esse rigoroso controle de qualidade nas edições já finalizadas que são claramente inferiores no aspecto do acabamento gráfico em comparação com as edições originais.

Os japoneses têm sua própria interpretação e maneira de conviver com o mangá e não precisam do mercado externo para garantir a sobrevivência do gênero. Uma queda no número de leitores começa a ser detectada e talvez esse seja o momento deles começarem a se preocupar em voltar às raízes e esquecerem um pouco das cifras que envolvem o licenciamento de produtos. Crying Freeman pertence a um outro tempo que não vai retornar, mas cujos valores podem e devem ser resgatados.

Franklin Ruão

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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