Cuiabá
Um tema pesado, uma boa surpresa




O Aborto dos Outros, de Carla Gallo

Por Sergio Alpendre

Uma tentação para quem se propõe a explorar um tema pesado e controverso é a de submeter todo o projeto estético ao tema optando por uma direção funcional, quando não extremamente presa a uma cartilha padrozinada do "como filmar um documentário". Felizmente, não é o que acontece com O Aborto dos Outros, de Carla Gallo. Aqui existe uma clara ambição estética e arriscada, que segue uma opção de linguagem bem consciente dos riscos que ela pode conter. Um dos maiores riscos é o de provocar a dispersão, pois as idéias visuais da diretora podem afastar os espectadores mais preguiçosos que queriam apenas ver o rosto das pessoas que dão depoimento para procurar uma identificação. Carla prefere captar detalhes, pedaços dos corpos filmados bem de perto, ou uma torneira pingando com todo o resto fora de foco, ou ainda um balé pelos olhos de uma mulher que foi obrigada a fazer sexo para que o marido lhe concedesse o divórcio. Pedaços que valorizam os corpos, realçando a agressão do que poderia ser um aborto não amparado por lei, além de resguardar a identidade de quem não quis se expor. Existe ainda uma atenção especial aos líquidos. O bebê que teve de ser sacrificado pois não produzia líquido amniótico por causa de cistos nos rins; a menina que tem a placenta estourada; a água que cai cansada da torneira, num plano corajoso que dura cerca de dez minutos e acompanha um dos depoimentos mais marcantes do filme. Enfim, o mérito da diretora é fazer com que essas opções estéticas de certa ousadia não brigassem com o tema de óbvia importância.

Revisões de curtas

O outro longa da noite foi o já visto e já criticado A Via Láctea, de Lina Chamie. Na programação de curtas pude rever Satori Uso, de Rodrigo Grota, que me pareceu ainda mais um exercício de poesia forçada - o que a empobrece - no retrato de um poeta japonês fictício. Fotografia, poemas escritos nas imagens, alternância de preto e branco com cores e uma narração aveludada contribuem para essa impressão. Curta que resiste bravamente à segunda revisão é Saliva, o melhor trabalho de Esmir Filho disparado, um mergulho (ops...) na primeira experiência de uma pré-adolescente com o beijo.

Abrindo a noite, três curtas-metragens de Goiás. O interessante O Pescador de Cinema, de Ângelo Lima, é sobre um dos pioneiros do cinema no estado, João Bennio, diretor de um único filme, OAzarento, e produtor de outros quatro, além de jornalista, ator e pescador. Resto de Sabão, de Rochane Torres é o mais fraco dos três, por tentar uma linguagem mais intelectualizada mas ficar apenas nos clichês do que seria um cinema mais intelectual. Anjo Alecrim, de Viviane Louise, é simpático em alguns momentos, mas insatisfatório ao nos apresentar o cantador Doma da Conceição de maneira bem comportada demais, rivalizando com o estilo folclórico do músico.

Comentário sobre o público

A iniciativa de reservar uma sala do Shopping Center Pantanal para a maior parte das sessões do festival é louvável, pois democratiza o acesso aos filmes e oferece uma projeção de boa qualidade, pelo menos nos filmes em película. No entanto, público de Shopping é igual em todo lugar, por isso fica difícil manter a concentração com pessoas falando no celular o tempo todo, ou transformando a sala numa gigantesca sala de estar com as conversas em tom de voz alto. Nem adianta o simpático mestre de cerimônias Júlio Bedim pedir para desligarem o celular. Os aparelhos parecem marca-passos atrelados às pessoas, que teriam delirium tremens se não estivessem conectadas com o mundo através desse aparelhinho tão útil e besta ao mesmo tempo.
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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