Como já havia visto os dois longas de hoje, o simpático e irregular Ainda Orangotangos e o belo Mutum, só tenho comentários para os curtas-metragens, e eles não são nada animadores. Iniciando às 18h30 com um video caseiro em homenagem ao aniversário da Orquestra Sinfônica da UFMT. O curta chama-se Da Capo - 30 Anos de Sinfonia, e é dirigido por Caroline Araújo. Entendo a necessidade de comemoração, mas lamento as escolhas estéticas da diretora, que se limita a brincar com uma edição oitentista, com janelas que exibem o mesmo conteúdo da imagem principal. O jeitão amadorístico não ajuda, e a homenagem infelizmente fica no meio do caminho, dependendo única e exclusivamente do som da Orquestra em ação.
Mais tarde foi a vez de um curta paraibano sobre travestis chamado Amanda e Monick, e dirigido por André da Costa Pinto, igualmente mal concebido, com uma direção que não valoriza os depoimentos dos travestis e parentes. O melhor deles, claro, é o do pai que demonstra maturidade e ausência de preconceito ao aceitar a opção do filho, mas é repetido desnecessariamente com o acréscimo de um letreiro com os dizeres, enquanto pai e filho se afastam pela rua.
Encerrando o primeiro bloco, o curta pernambucano em película Igbaodú - Cabaça da Criação, que vai fundo na pesquisa folclórica, mas não na linguagem. É melhor que os dois curtas anteriores, mas não basta colocar a câmera em qualquer lugar e extrair daí uma imagem fria, tem que se saber o que quer, saber explorar as melhores possibilidades dos entrevistados, os enquadramentos, os tempos de corte. Igbaodú é certinho, e dada a qualidade da média dos curtas, é um certo alento, mas é pouco dentro de um quadro que precisa, clama, por renovação.
A redenção
O segundo bloco redime facilmente o primeiro, a despeito de dois clipes de reggae perfeitamente dispensáveis (aliás, é sensível como a seleção de videoclipes está pior neste ano). Primeiro veio o tosco e divertidíssimo trabalho de animação O Jumento Santo e a Cidade que se Acabou Antes de Começar, de William Paiva e Leo D., uma doideira desatada que carrega no sotaque para provocar risos da platéia. Piadas consecutivas envolvendo a criação divina, com direito a dilúvio, Adão e Eva, Arca de Noé, e outras passagens bíblicas, fazem do curta a coisa mais engraçada vista até aqui no Festival.
Em seguida, A Peste de Janice, um belo trabalho de Rafael Figueiredo, com a nada fácil tarefa de filmar crianças na escola. Toca de leve no preconceito social, mas não deixa de retratar a necessidade que se tem, desde criança, de fazer parte de um grupo, uma comunidade. O dilema da única menina que se aproximou de Janice é esse: não passar a peste (uma brincadeira clássica da infância, equivalente ao "passa senão fede") significa perder sua posição dentro do grupo, sua participação nas brincadeiras do recreio. Mas ela sabe que passar seria judiar da amiga, pela qual desenvolveu afeto e certa cumplicidade. É o tipo de curta armadilha para seu diretor, pois se ele escolhesse terminar bem poderia facilmente cair no piegas, e se resolvesse que a personagem terminasse a brincadeira, cairia numa crueldade tamanha, arriscando a carreira do filme. Fez o certo, deixando a nós uma bela pulga atrás da orelha.
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Apêndice: as piores e melhores coisas da 15ª edição do Festival
piores
- o público de shopping, extremamente mal educado, que ignora a orientação para não falar no celular e, em sua maioria, só quer saber de desfilar na frente da sala;
- o calor, que por enquanto não está maior do que o que faz em São Paulo, mas impede uma caminhada para conhecer melhor a cidade;
- os atrasos nas sessões, sempre de, no mínimo, meia hora;
- a qualidade dos trabalhos em vídeo, com raras exceções, do sofrível para baixo;
melhores
- todo o pessoal que trabalha no festival, da diretoria aos orientadores de sala, dos assessores de imprensa ao pessoal do credenciamento. Todos muito simpáticos e solícitos;
- a projeção da sala Pantanal 8, com bom som, bom scope, janelas corretas;
- o mestre de cerimônia Júlio Bedin, que consegue fazer rir mesmo quando é bobo e criança (como quase todos os homens, aliás). Sua performance é melhor que a do ano passado. Exemplo: neste dia 26, ao anunciar o vencedor do kit Glauber Rocha, disparou: "o ganhador é... jumento", brincando com o título do curta que viria a seguir (tipo de piada infame e muito engraçada);
- o ar condicionado no talo de todos os lugares (ou quase), em especial dentro do quarto e dentro da sala de cinema;
- o restaurante Vale Verde e o atendimento super simpático de lá. Difícil vermos self service tão bom quanto esse;
- as tiradas inspiradas de Joel Pizzini;
- as risadas com o companheiro de quarto Cid Nader, editor do Cinequanon (aliás, recomendo a cobertura leve e descontraída);
- a beleza da mulher cuiabana;
- a boa safra de documentários, com destaque para O Aborto dos Outros e Anabazys.