Cinema - Cultura - Comportamento

Meu Nome é Dindi, de Bruno Safadi
Por Sergio Alpendre
Parece que o diretor Marco Altberg não conseguiu os direitos para usar a maravilhosa música de Milton Nascimento e Fernando Brant que intitula este pequeno artigo, apesar de ter músico e letrista como entrevistados de seu documentário. A música que faz parte da obra-prima Minas, de 1975, aparece várias vezes numa versão instrumental, e na voz de Elis Regina, mas nunca na versão cantada por Milton. É um fantasma que paira sobre Panair do Brasil, como os funcionários da extinta companhia pairam como fantasmas que se recusaram a sair do navio naufragando. Um filme meio triste, tanto pelo tom de lamento da coisa toda, um aborto do regime militar, como pela maneira feijão com arroz demais do filme. A certa altura, é um pouco difícil não sentir sono, vontade de passear à espera de uma brisa qualquer, ou mesmo de ficar olhando a reação da platéia, e reparar que o número de pessoas conversando só não bateu o recorde porque a sala está bem vazia.
Amauri Tangará e a aventura de fazer cinema em Mato Grosso
Depois do longa A Oitava Cor do Arco-Íris, esperava o pior deste novo curta de Amauri Tangará, Horizontem. Um poema de T.S. Eliot parece ter orientado a idéia por trás do filme, e não se pode dizer que não seja um considerável avanço em relação ao longa citado. Horizontem tem um rigoroso trabalho de câmera, sabe lidar com as quebras de eixo, com a desolação do cenário natural, e só peca na simbologia um tanto fácil: uma velha, uma noiva (abandonada no altar?), um palhaço, três formas diferentes de melancolia parecem ter abdicado da vida, e se encontram numa paisagem isolada do mundo, de tamanha aridez, e recebem um recado do futuro (assim diz a storyline no catálogo), que cita o poeta americano que mencionei acima, nas bonitas frases (cito da tradução que tenho aqui, não da que foi usada no filme):
“O cadáver que plantastes ano passado no teu jardim,
Já deu algum fruto?”
O curta-metragem de Tangará é muito superior a qualquer outra obra matogrossense que passou por aqui, e isso já é motivo de esperança, pois a região realmente carece de talentos cinematográficos.
Dindi Empire
A chance de rever Meu Nome é Dindi, elogiado longa de estréia de Bruno Safadi, foi hoje, e quando lembrei que o filme nunca terá cópia em película, e que a exibição iria ser da Rain quase desisti. Fiquei, pois estava no formato scope pensado pelo diretor – o que abre um perigoso precedente, pois agora as distribuidoras sabem que dá para lançar filmes nesse formato para exibição digital (se bem que isso evitaria o crime cometido contra Não Estou Lá, pensado em 2.35:1 – scope -, mas exibido em 1.85:1).
Deixando as digressões revoltadas de lado, ficou ainda mais claro que o filme de Safadi é muito mais próximo de Lynch do que da Belair, e que seus intentos poéticos ficam, realmente, na metade do caminho. É particularmente desastrada a incidência de elementos fantásticos, que brigam com o drama de Dindi – este sim, realmente com algo forte cinematograficamente – e parecem querer forçar a barra para se afiliar ao cinema dos mestres do diretor – Bressane e Sganzerla, e demonstrar a sintonia com os novos ares do cinema autoral – via Lynch e seu Império dos Sonhos. Só que uma simples comparação com os últimos filmes dos mestres brasileiros (Filme de Amor, Cleópatra e O Signo do Caos), imediatamente desautoriza qualquer filiação.
Nesse sentido, Meu Nome é Dindi começa bem, com a câmera seguindo a personagem em plano-seqüência, para depois se perder aos poucos, primeiro pela aparição de Carlo Mossy, um grande ator canastrão, desperdiçado pelo tom caricatural da atuação, depois por uma seqüência boba e cheia de simbolismos fáceis na praia. Quando volta para a pequena habitação de Dindi, o filme melhora, apesar da idéia da fita VHS ser um tanto simplória, o conteúdo dela consegue impressionar, muito pelas interpretações notáveis de Djin Sganzerla e Nildo Parente. Ou seja, Meu Nome é Dindi é muito mais forte quando abraça uma dramaturgia do que quando quer experimentar.
O que leva a crer que Safadi é um diretor promissor. Qualquer um que tenha acompanhado debates, ou conversado alguns minutos com ele, sabe que ele pensa o cinema de forma passional e sabe aonde quer chegar. Esperamos apenas que seu próximo filme reflita melhor seu potencial do que esta irregular obra de reconhecimento de caminho.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
Para comprar os números antigos da versão impressa, clique aqui.