Dig!!! Lazarus Dig!!!
Nick Cave & The Bad Seeds

(Mute)



 

Nick Cave chega aos 50 anos com uma carreira das mais regulares na história do rock. É muito difícil esperarmos menos do que um excelente disco a cada novo capítulo de seu longo inventário de amarguras.

Dig!!! Lazarus Dig!!!, mesmo com esse pedigree, é inacreditável. Condensando o melhor de seus excelentes trabalhos anteriores, Abbatoir Blues/The Lyre of Orpheus, com os Bad Seeds (2004) e Grinderman, projeto de mesmo nome, com outra formação (2007), Cave novamente se superou em um álbum repleto de tesão em todos os sulcos. A melancolia de The Lyre of Orpheus se mescla com a dureza de Abbatoir Blues e a fúria de Grinderman em Dig!!! Lazarus Dig!!!, portanto, sai de baixo desse trovão feroz e suave ao mesmo tempo, como poucos conseguem ser. Certamente o disco do ano, a não ser que algum milagre aconteça.

Não acredita? Vá para a faixa 8, "Lie Down Here (And Be My Girl)". Está tudo lá. Tudo condensado em cerca de cinco minutos: bela melodia, ferocidade, punch, uma interpretação única como sempre, a guitarra endemoniada... uma perfeição em forma de música. Uma jóia que já bastaria para se considerar Nick Cave um dos maiores artistas contemporâneos.

Já reouviu umas três vezes a faixa? Agora pode ouvir o disco inteiro, na ordem planejada pelo autor. Você vai se deparar com a faixa título, grafada de maneira diferente, como "Dig, Lazarus, Dig!!!", com um backing vocal que já a coloca entre as mais fortes composições de Cave, um cruzamento inimaginável entre o gospel, o black metal e o pós-punk, tudo sob o vocal acolhedor e vivido do mago.

As duas vírgulas a mais e a ausência de um conjunto de três pontos de exclamação talvez aponte para uma necessidade de se prestar maior atenção às nuances que Cave emprega em cada canção. Há quem o acuse de monocórdico, de entoar sempre as mesmas loas, mudando pouca coisa entre uma e outra. Talvez seja o caso de uma limpeza nos ouvidos. Ou na maneira de se apreciar um disco, ou qualquer outra peça musical. Nunca uma peça musical qualquer, pois isso ninguém jamais ouvirá de Nick Cave. Seu vocal é quase sempre chorado, mas às vezes é um choro de raiva, outras é um choro de angústia, de ansiedade ou afobação, e em algumas vezes pode ser até de genuína alegria. Basta querer ouvir. O que acontece também é que ele raramente submete suas letras às frases melódicas, mas sempre o contrário. A melodia está submetida à melhor maneira de cantar as belas letras compostas por ele, e por isso a divisão das palavras dentro da melodia é quase sempre estranha, difíceis de ser absorvida de primeira.

A segunda faixa, "Today's Lesson", é uma semi-balada cheia de veneno na guitarra e uma levada mais esperta e direta que o normal em seus discos. Aliás, em outras canções dá para notar a proeminência de violões e outros instrumentos acústicos, algo já usado por Cave, mas que eu me lembre nunca com tanta incidência, além de efeitos de looping que soam como os pássaros doidões do famoso filme de Hitchcock.

"Moonland" tem a percussão como centro de sua força, de onde saem a soniridade e o tom solene, enfeitados por uma guitarra econômica e melódica na medida certa. Outro primor de construção.

Aí chegamos numa das mais estranhas do disco: "Night of the Lotus Eaters", cheia de sons misteriosos e com um andamento repetitivo como num mantra, ou num clássico do Velvet Underground, com a voz de Cave soando ainda mais fantasmagórica que o normal. Trilha para um filme ordinário de terror. "Albert Goes West" é um rockão direto e preciso, como só um cinquentão parece saber fazer nestes dias, e "We Call Upon the Author" aponta para uma influência pós-punk de um Killing Joke (na época de Revelations), com sua batida tribal e suas dissonâncias, enquanto "Hold on to Yourself" retoma os sons de pássaros mecânicos enfurecidos em uma balada prog-country da melhor qualidade.

A esta hora, se o leitor estiver ouvindo o disco enquanto lê este texto (opção não recomendável), já deve ter chegado novamente à oitava faixa. Não pule, ouça de novo, agora contextualizando com o restante do disco. Ouça como ela se harmoniza com as demais e ajuda a compor um conjunto dos mais ecléticos, algo que Tender Prey ou Nocturama não conseguiram ser, apesar de terem todas as qualidades possíveis. Ouça como sua melodia se impõe de forma natural, sem abusar de refrões grudentos ou mudanças óbvias de acordes.

"Jesus of the Moon" nos leva para outro clima. Uma fogueira numa floresta escura e pessoas encharcadas de bêbadas vociferando contra os céus sobre seus amores despedaçados. Violões e outros instrumentos bucólicos sustentam a voz de trovador, numa outra faixa impecável. A esta altura já foram 40 minutos de grande música, da melhor que se pode ouvir hoje em dia. O acabamento vem sob forma de duas canções igualmente fantásticas. "Midnight Man" é vintage Cave, do tipo de música que ele sempre fez bem, direta, com poesia marcante e recitada com paixão por ele. "More News From Nowhere" já é outro caso à parte. Uma daquelas faixas de encerramento que fazem com que fiquemos ansiosos em reouvir o disco, que nos relembram das riquezas contidas no álbum. O poder de remeter a outros encantos recém ouvidos sem se parecer com nenhum deles em específico. Uma faixa que parece existir unicamente para provar aos incautos que Nick Cave ainda é o maioral em sua arte de anjo caído, em sua capacidade de comover e tocar o mais frio dos seres com canções das mais embriagadas de humanismo. É um artista que está cada vez mais entre nós, cada vez mais preso ao mundano e ao terreno. Um artista, de fato.

 

Sérgio Alpendre

Os grandes álbuns de Nick Cave

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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