As Duas Inglesas e o Amor

LES DEUX ANGLAISES ET LE CONTINENT. (França, 1971). De François Truffaut. Com Jean-Pierre Leaud, Kika Markham, Stacy Tendeter. Versátil. Projeção: 1..66:1. 130min.



Há uma vocação para o romanesco em Truffaut que se desenvolve no sentido de uma crônica dos costumes, ênfase subjetivista, impressionista na representação do mundo e pessimismo na pintura das relações amorosas.

Essas três tendências se encontram intensificadas em As duas inglesas por uma precisão lapidar do ritmo que transforma a sucessão dos planos numa série de motivos e instantes irredutíveis uns aos outros, série que só vai adquirir seu significado pleno na cena final, quando o herói tiver reencontrado a si mesmo e a narração o seu termo.

Em Duas inglesas, os personagens, mais ainda que em Jules e Jim , também inspirado num romance de Pierre Roché, são projeções da subjetividade do herói; ele mesmo, Claude (Jean Pierre Léaud), jovem francês que vai veranear numa cidade inglesa na casa de Ann Brown (Kika Markham) e de sua irmã Muriel (Stacey Tendeter) com quem estabeleceu contato por meio de sua mãe, é também uma projeção do Claude narrador, um personagem entre outros no mosaico acinzentado como a paisagem inglesa que nos apresenta o cineasta; mosaico que confunde as coisas, as trajetórias dos personagens no espaço, o entalhamento seco e cadenciado da duração numa única temporalidade: o tempo de uma vida que se esvai e cujo sentido é ser reconstituída e contida nos limites de uma narrativa. Em Duas Inglesas , o destino das peripécias sentimentais não é gerar comoção ou identificação, mas virarem enredo de uma educação sentimental que constitui a essência do romanesco.

Ao contrário de Jules e Jim , filme do instante estilhaçado, da técnica exibicionista, Duas Inglesas é um filme que deve muito ao classicismo outonal que vemos em filmes como O menino selvagem, Adele H. e O quarto verde. Estes filmes, ao contrário do libelo apaixonado de 61, se debruçam sobre a mortalidade, se elaboram na percepção da vida como vivência contemplada pela distância da narrativa, do privilégio do romanesco sobre a urgência da experiência.

O texto analítico do cientista em Menino Selvagem , a própria situação em O Quarto Verde (Julien Davenne e sua idolatria aos mortos) e as cartas em Duas Inglesas cumprem esse objetivo de distanciamento, de petrificação da experiência. Se a questão da morte é tematicamente assumida em O Quarto Verde , em Duas Inglesas ela impregna o ritmo do filme, um compassado e soturno estado de catalepsia, de exílio do mundo social que coincide com o amor e a morte.

Não há propriamente drama, aventura, progressão dramática no filme; a relação entre as cenas é determinada menos pela evolução dramática que pela concentração, a cada sequência mais densa, no interior dos personagens. Com a passagem do filme, percebemos que a única relação que eles ainda mantém com o mundo (o mundo como universo de paixões, como espaço onde agimos e somos objetos das ações dos outros) está reservado à palavra, palavra fantasmagórica cuja função não está em sustentar , acirrar as paixões (como em Jules e Jim ), mas em conformá-las a uma espécie de serenidade elegíaca, fúnebre. Em extraí-las da esfera do mundo e lançá-las num limbo, o limbo do cinema como memorial do passado, como acólito da morte e da rememoração.

É aí que a experiência caduca que o filme reconstitui encontra o romanesco. Claude personagem só se realiza às custas de seu diário; só nos aparece como a sombra de uma designação que nasce na metáfora e se conserva nela. Duas inglesas não é a história de três vidas enredadas pelo amor e sua ciranda fatídica ou turbulenta, mas do percurso que leva da narrativa à vida e da vida à narrativa, e de como essa trajetória é típica de nossa mortalidade. De como a palavra (a do diário de Claude mas também da narração de Roché, lida por Truffaut) unicamente enfeixa e confere significado, ritmo, cores e música a vidas que, entregues à própria sorte, descrevem apenas movimentos incompletos e gestos em suspensão, evasivos. Apenas na plenitude do romanesco, da “história narrada” como princípio de significação da vida é que a vida finita encontra o sentido de seu movimento. Todo romance, aliás, se articula nesse jogo entre o verossímil e o metafórico, entre a vida revelada pela palavra e a palavra como o invólucro da vida. Em nenhum momento, porém, Truffaut se curva à tentação da complacência decadentista, expressionista típica desse gênero de relação. O seu estilo, se estilo há, exibe a fluidez do documento, sua secura.

Um jogo de planos e contraplanos e planos médios estabelece o confinamento de um grupo de personagens com pouco ou nenhum contato com um meio mais vasto, histórico ou social. Aqui, ao contrário de Jules e Jim , a História (a guerra, no primeiro filme) pouco conta. A razão é clara: em Jules e Jim , os personagens ainda atuam, se rebelam, acompanhamos as peripécias presentes de sua vida presente, embora o filme seja apresentado no mesmo estilo de Duas inglesas, mediado pelo texto original. Necessitam, portanto, de uma situação, de um palco para se mover e agir: Paris, 1910. A conclusão daquele filme consistia em que a vida, ao seu termo, no esgotamento de suas possibilidades, virava narrativa. O filme, porém, se extasiava na descrição dos movimentos da vida, seus fluxos, a luz diamantina de sua trajetórias. Um filme juvenil para descrever um amor juvenil, embora envenenado.

No filme de 1971, o que importa a Truffaut é o modo como a aventura sentimental dos personagens se cristaliza em narrativa, em tempos e espaços habitados unicamente pela memória e pela imaginação. A aventura sentimental existe apenas em função de seu registro como romance, como diário de Claude e como narração do texto de Roché. Se os mortos tinham seu guardião num homem em O Quarto Verde , aqui este papel cabe unicamente à palavra. Palavra como monumento fúnebre, fixação da paisagem humana desolada pelo tempo.

A vida que desemboca em representação, como educação sentimental a ser reconstituída pela palavra e destinada unicamente à palavra. Esta era a conclusão de Jules e Jim . Em D uas Inglesas , este é o princípio do qual o filme parte e para o qual retorna, estabelecendo um ciclo cristalino que embalsama a experiência e a envolve numa aura crepuscular e contemplativa.

Luiz Soares Júnior

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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