Andrea Tonacci



Por Leonardo Luiz Ferreira

A chegada de Serras da Desordem às telas é o desfecho almejado de um longo processo por parte do cineasta Andrea Tonacci, que passou anos refletindo sobre o projeto e o material filmado para conseguir finalizá-lo. É do cinema da imperfeição que nasce um estranho e fascinante híbrido entre ficção e documentário. Na entrevista exclusiva, Tonacci fala a respeito da obra, avalia as leis de incentivo e reforça que ainda existe público para um cinema autoral.

Revista Paisà : O quanto o longo hiato cinematográfico, já que sua estréia com Bang Bang data de 1971, contribuiu para a experiência radical de Serras da Desordem?

Andrea Tonacci: O hiato é só relativo à exibição cinematográfica, à exibição nas salas de cinema, porque efetivamente não parei de trabalhar, e a busca da ficção impregnada no real documentável pelo olhar intencionalmente ficcional é algo que venho fazendo desde o Jouez Encore . Neste filme de 1975, com Victor Garcia, Ruth Escobar e um elenco de atores brasileiros, já tentei trabalhar esta falsa dicotomia documentando situações de produção, ensaio, administração e pessoais de atores que em cena interpretam um texto do Calderon (De La Barca), os Autos Sacramentais, que falam do grande mercado do mundo, e que em muitos aspectos coincide com os diálogos diários de nossas esperanças, ambições, vida-morte-vaidades e emoções, fazendo com que o texto circunstancial vivido durante aqueles dias de trabalho passasse de uma situação casual para uma de ensaio textualmente formal e tivesse uma continuidade de sentido. Se há alguma radicalidade no Serras corresponde à radicalidade do mundo e ao acúmulo de impotência do homem comum diante do arbítrio, violência e farsa que as exigências do sistema tecno-consumista impõem como condições e valores ao ser Humano cuja corporalidade biológica, pelo contrário, para sua sensibilidade e atenção à natureza, e prazer de vida, exigem espaço, tempo, silêncio e relaxamento. A desumanização funcional é uma imposição sistêmica que exclui o homem dos objetivos naturais de sua existência, que é seu próprio prazer e desenvolvimento pessoal.

O documentário teve uma primeira versão bem maior do que os seus 135 minutos finais. Isso comprova a importância do trabalho de montagem. Fale sobre o processo de edição.

A montagem é a busca da essência, da síntese simbólica formal e narrativa, o que não tem nada a ver com o tempo real, existencial. Tínhamos cerca de 150 horas de material diversificado, 8 horas em 35mm, 120 em DV e mais de 20 horas de imagens de arquivo. A primeira “limpeza” reduziu tudo para 60 horas, um segundo corte baixou para 9 horas, aí as coisas começaram a ficar mais visíveis (embora tenhamos recuperado algumas cenas que só fizeram sentido quando sentimos falta delas), daí chegamos a 3 horas e para chegar nos 135 minutos a montadora Cristina Amaral precisou de quase um ano de reclusão e mergulho naquela realidade. É um trabalho orgânico cujo caminho se faz ao percorrê-lo, é o oposto de um procedimento mecânico metódico de formulas pré-estabelecidas. E mais, a montagem, para o verdadeiro montador, é uma entrega, uma generosidade quase de incorporação da alma e das intenções e sentimentos da direção, e é nessa identificação com o outro, o que está na tela e sentado ao lado, que reside a possibilidade de num determinado momento perceber que não mais dirigimos o trabalho, mas seguimos suas indicações e revelações. É o filme que passa a ter vida própria. Como dizia Cartier Bresson em relação à fotografia, um estado de atenção pura, de respeito e não de poder da vontade, é a foto que clica o fotógrafo.

Serras da Desordem é um filme difícil e que exige uma entrega por parte do espectador. Apesar disso, o longa recebeu o prêmio principal de Gramado, um festival que ultimamente se voltou para o lado comercial, e foi bem recebido por diversas platéias. Que motivos você avalia para esse diálogo com o público?

Festival e público de festival são diferentes de público em geral. Festival é jogo de interesses, e no caso de Gramado o ano em que o Serras ganhou dividindo prêmio de melhor filme com Anjos do Sol, o filme foi convidado a participar exatamente para tentar valorizar o lado cinematográfico contra o padrão comercial instituído. E soube que a briga foi pesada no júri porque tinha duas pessoas da Globo lá dentro, e foi esforço do presidente do Júri, Rodolfo Nanni, que peitou a campanha pré-armada de divulgação do Anjos que na mesma noite tinha entrevistas no Faustão, Fantástico etc, o Serras foi uma pedra no sapato deles, mas considero que foi o real vencedor porque ganhou também Direção e Fotografia. Quanto ao Serras ser bem recebido publicamente acredito que seja porque ainda há sobreviventes humanos e pensantes entre nós, de qualquer maneira, mesmo estando na 4ª semana de exibição em SP seu público é bem limitado. Seria pretensão da minha parte fazer suposições, mas acredito que a crítica positiva tenha contribuído muito e as questões que o filme levanta, exatamente por não darem respostas, mas motivarem reflexão, e que encontram eco nas ansiedades dos que percebem e buscam um sentido ainda humano numa sociedade adormecida, condicionada e manipulada pela violência do bombardeio que são televisão, propaganda, interesses e consumismo.

A linha tênue que separa a ficção do documentário vem aparecendo no cinema desde seus primórdios. Em Serras, há uma mistura entre a ficção com o documental e que gera um estranhamento ao mesmo tempo em que fascina. Quais são as diferenças/semelhanças entre ficção e documentário? Desde a gênese do projeto a idéia era realizar um híbrido?

A diferença está na intencionalidade do olhar, na subjetividade do olhar, contudo não havia no primeiro roteiro que escrevi esta dicotomia formal, primeiro escrevi uma ficção com atores, reconstruções cenográficas etc e não só o orçamento ficou inviável para as minhas possibilidades, como essencialmente falso e irreal, depois escrevi uma versão bem doc, bem jornalística e ficou de fora minha subjetividade, minha emocionalidade e sentimento de identidade com o Carapirú, tentei ainda uma versão urbana em que Pereio faria um homem destroçado que durante dez anos vaga barbudo e marginal incógnito numa cidade como SP, mas era uma imagem muito próxima de nós, imagem sobre a qual temos muitos julgamentos, opiniões e preconceitos, e, finalmente, cheguei aos próprios personagens reais que já continham a emocionalidade e a memória dos fatos vividos, o que para a direção é uma maravilha, coisa que só atores excepcionais poderiam elaborar do fundo da alma.

Um dos principais documentários da década é S21: A Máquina de Morte do Khmer Vermelho, de Rithy Panh, que, no Brasil, passou apenas em festivais, em que os militares do regime do Khmer Vermelho responsáveis por um genocídio no Camboja reencenam seus atos. A reencenação em documentários tem forte presença, e isso se faz presente em Serras. Fale sobre a reencenação e as referências cinematográficas de Serras da Desordem.

Não conheço este filme cambojano, e pelo que me diz gostaria muito de assistir. Quanto a referências no Serras são mais citações que referências, como Iracema: Uma Transa Amazônica, A Cabra na Região do Semi Árido, coisas que após a filmagem, durante a pesquisa de imagens de arquivo, revelaram-se análogas, parecidas, simbólicas, foram encontros, pois a priori não havia isto, mesmo as do Major Reis. O resto são imagens jornalísticas selecionadas pelo conteúdo e referência visual que já pertencessem de alguma forma à memória das pessoas, que permitissem projeções da subjetividade pessoal do espectador. Quanto às referências cinematográficas pessoais impregnadas há anos estão Rossellini, J.M. Straub, Antonioni, Pasolini, Satyajit Ray,...

Há algum tempo foi noticiado que sua curta filmografia seria lançada em DVD. Isso ainda vai acontecer?

Se houver alguém interessado desconheço, também gostaria que fosse possível, mas até agora nem para o Serras houve interesse, aliás até enviei para dois distribuidores e nem resposta obtive. Só a Programadora Brasil é que lançou recentemente um DVD com Bang Bang e Bla Bla Bla.

Qual será seu próximo projeto?

No momento estou filmando um etnodoc de 26 minutos para Tvs educativas selecionado em recente concurso do Iphan/MinC/Petrobrás. Trabalho também num projeto de longa-metragem, mas, por enquanto, prefiro deixá-lo fervendo antes de tirar a tampa. De resto não sei se será possível, pois o atual sistema burocrático de produção incentivada tem por objetivo acabar com a produção independente e inventiva e favorecer descaradamente a implantação de um cinema “industrial” e comprometido ideologicamente com interesses de mercado alheios à identidade brasileira. Basta olhar no site da ANCINE quem são, afora Petrobrás e mais uma ou duas estatais, os maiores investidores através da lei do audiovisual. Está tudo dominado pelas distribuidoras estrangeiras, e as pessoas, exceto poucos como Júlio Bressane, Carlos Reichenbach, Luiz Rosemberg, Edgard Navarro, Carlos Prates, só pensam em Cannes, Berlim e Oscar. Isto começou com o desmonte da educação brasileira, anos atrás com o acordo Mec Usaid. Todos serviçais do império do terror. Os índios ainda são os únicos que lutam contra o terrorismo dos invasores deste continente desde 1492.

Serras da Desordem por Sérgio Alpendre

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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