Cinema - Cultura - Comportamento
IL FERROVIARE. (Itália, 1956). De Pietro Germi. Com Germi, Luisa Della Noce. Versátil. Projeção: 1.85:1. 118min.
Diferente de Roberto Rosselini e Vittorio De Sica, o nome do realizador Pietro Germi não é normalmente saudado como um dos mestres do neo-realismo. Isso também em parte pela sua não consagração em festivais de renome, apesar de alguns poucos prêmios, e de uma inclinação pessoal para comédias de costumes, caso de seu maior êxito, Divórcio à Italiana (1961) , vencedor do Oscar de melhor roteiro.
Assim como recuperou em DVD a grandiosa obra de Valerio Zurlini, a distribuidora Versátil inicia o trabalho de resgate para cinéfilos brasileiros da filmografia de Germi com O Ferroviário (1956) em uma cópia restaurada primorosa. Dessa forma, é possível se promover um revisionismo do longa, que apresenta, sem dúvida, características marcantes de um cinema italiano vigoroso. Este não só relacionado com as experiências neo-realistas como também ao melodrama familiar, que ainda reverbera nos dias de hoje em jovens cineastas, entre eles Kim Rossi Stuart e seu belo Estamos Bem Mesmo Sem Você (2006).
O Ferroviário é um filme sobre movimento, tanto externo quanto interno. Isso já se delineia nos primeiros planos que mostram um menino em uma corrida desenfreada e um trem que chega à estação. Através de uma simples montagem paralela, Germi, que interpreta o papel principal, introduz aquilo que de mais significativo há em sua narrativa: a relação emotiva e de afinidade mútua entre um pai (Andrea) e filho (Sandro). Nesse princípio, O Ferroviário parece não ser constituído de um drama aparente em que os personagens celebram a vida, como na harmoniosa seqüência do bar.
O pequeno Sandro é sempre colocado à margem nas discussões, porém permanece observador a tudo que ocorre a seu redor. Discretamente a narração configura-se como seu rito de passagem. E isso se concretiza quando o menino assume a voz do narrador em breves intervenções em off. É a partir de seu olhar que a crise de sua família será transmitida ao espectador: pai e filha entram em conflito, após a descoberta de uma gravidez inesperada.
A câmera, ainda que menos que de outros pares da geração dos anos 50, vai para as ruas em busca da captura do cotidiano, sem artificialismos. Em meio a luta operária pelos direitos, O Ferroviário foca sua ação na dissolução familiar, assim como Antonioni em O Grito (1957). Apesar das qualidades de Pietro em trabalhar o melodrama, há uma sensível queda nas passagens temporais, sobretudo, porque o eixo entre pai e filho é, momentaneamente, partido, onde exatamente pulsava a maior força do filme.
O Ferroviário estabelece a continuidade do cinema humanista escorado em uma direção de arte simples e um artesanato competente em sua realização. E, em especial, se mantém fiel a concepção não didática e distante do panfletarismo, assim como a maioria dos filmes neo-realistas.
Leonardo Luiz Ferreira
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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