Filmografia comentada
Woody Allen

por Sérgio Alpendre


 

 

Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run, 1969)

A estrutura é de reportagem sensacionalista, com os pais do personagem de Allen se disfarçando com máscaras de Grouxo Marx nos depoimentos para a TV. Hilário e destrambelhado como nunca mais o diretor seria.

 

Bananas (Bananas, 1971)

Na primeira metade, uma comédia das melhores já feitas. Na segunda o filme quase se perde na sátira política. Ainda assim, um trabalho e tanto do diretor.

 

Tudo que Você Queria Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex, But Were Afraid to Ask, 1972)

Irregular pela própria estrutura, tem alguns achados espalhados e pelo menos um episódio genial, o do espermatozóide em crise existencial (vivido por Allen, claro).

 


O Dorminhoco (Sleeper, 1973)

O ponto alto da primeira fase de sua carreira, junto com Um Assaltante Bem Trapalhão. O futuro na visão cinzenta, mas bem-humorada de Allen, diretor chegado em paradoxos.

 

A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975)

Um filme de transição, como se preparasse o terreno para a sofisticação narrativa de Noivo Neurótico .

 

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977)

Um dos filmes mais famosos de Allen é também um dos mais arriscados. Muitas idéias são jogadas dentro de uma estrutura narrativa bem rica, para falar de coisas simples. A grande sacada foi a ponta de Marshall MacLuhan (que deveria ser de Buñuel) fazendo ele mesmo numa aparição surpresa.

 

Interiores (Interiors, 1978)

Um drama sisudo, muito influenciado por Ingmar Bergman. Muitos odiaram na época, muitos odeiam até hoje. Mas é um dos filmes mais bem dirigidos de Woody Allen, com a câmera realizando movimentos de câmera que lembram mais Max Ophuls do que Bergman..


Manhattan (Manhattan, 1979)

Sem dúvida o filme mais pretensioso do diretor, e muitas vezes incompreendido por isso. Filmado em preto e branco, utilizando a tela larga do cinemascope, é a declaração de amor do cineasta à sua Manhattan, e às mulheres dos mais diversos tipos e idades.

 

Memórias (Stardust Memories, 1980)

Muitas vezes comparado ao 8 1/2 de Fellini, Memórias consegue captar tanto a tristeza quanto o lado bufão do mestre italiano. Ao ser chamado indiretamente de narcisista, o diretor do filme dentro do filme responde: "se há um personagem da mitologia grega com o qual eu me identifico certamente não é Narciso". Quem é?", pergunta a reporter. A resposta vem certeira: "Zeus".

 

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão (A Midsummer Night's Sex Comedy, 1982)

A exemplo da versão de Bergman para a obra de Shakespeare ( Sonhos de uma Noite de Verão ), o filme é bem agradável, mas, ao contrário daquele, cai numa revisão. Apesar disso, é um refresco dentro de uma das fases mais ambiciosas do diretor, e o primeiro a contar com Mia Farrow no elenco.


Zelig (Zelig, 1983)

Uma obra-prima inclassificável. Zelig traduz um estado humano que todos parecem apresentar de vez em quando, uma semi-esquizofrenia cada vez mais presente no mundo moderno. Ao mesmo tempo, um panorama histórico envolvente pelo prisma de um homem que, por ser muitos, não era nada.

 

Broadway Danny Rose (idem, 1984)

Novamente o preto e branco de Manhattan e Memórias , em um filme menos pretensioso, mas igualmente cheio de referências literárias e filosóficas. Para o Allen dessa época, não bastava fazer rir, era preciso difundir intelectualismo.

 

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985)

Aqui se inicia uma nova fase, um pouco mais nostálgica, mais Fellini do que Bergman (duas das maiores influências do diretor). O fantástico surge com naturalidade, como parte de um poder intrínseco ao cinema.


Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, 1986)

Allen consegue unir o melhor de Noivo Neurótico e Manhattan com observações pertinentes a respeito da vida e da sabedoria. Um filmaço recheado de cenas engraçadas e citações filosóficas que não passam por inteligência enfiada goela abaixo - como em alguns filmes da década de 90.

 

A Era do Rádio (Radio Days, 1987)

É o Amarcord do diretor. Nostálgico na medida certa, mas com uma irregularidade geral no ritmo. Começa muito bem, mas depois termina cansado, graças a uma grande barriga em sua metade final.

 

Setembro (September, 1987)

Um desastre. O pior Allen sério de longe.

 

Contos de Nova York - Édipo Arrasado (New York Stories - Oedipus Wrecks, 1988)

Édipo Arrasado é o melhor episódio do longa Contos de Nova York . Considerando que os outros dois episódios foram assinados por Coppola e Scorsese, dá a impressão de ser um feito e tanto. Engano. Na verdade faltou inspiração aos outros dois.

 

A Outra (Another Woman, 1988)

A melhor emulação do cinema de Ingmar Bergman feita pelo diretor. A música de Erik Satie é utilizada brilhantemente, e as atuações de Gene Hackman e Gena Rowlands são irrepreensíveis.


Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989)

É um dos filmes mais amados do diretor, mas confesso que caiu na revisão. Martin Landau está muito bem, mas o melhor é o personagem de Allen com ciúmes da ex-mulher.

 

Simplesmente Alice (Alice, 1990)

Só não é o pior filme de Woody Allen porque ele fez Setembro três anos antes. Tentaviva frustrada de voltar a Fellini.

 

Neblina e Sombras (Shadows and Fog, 1992)

Novamente Fellini, mas filtrado por um pessimismo bem Alleniano. Tem seus momentos, mas é desigual demais.


Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992)

Um retorno à melhor forma e aos momentos mais pretensiosos de sua carreira. O casamento com Mia Farrow estava chegando ao fim, e ele expunha corajosamente as nuances dessa relação. Mas talvez a maior coragem foi a de Farrow, que aceitou atuar mesmo percebendo do que se tratava. Era muita vontade de ser Giulietta Masina na época de 8 1/2 .

 

Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993)

Diane Keaton dá novo gás ao diretor, e uma leveza que fazia falta a seus filmes. É engraçado e tem um senso de coloquial que parecia perdido em algum momento da década anterior.


Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway, 1994)

Um personagem antológico: Cheech (Chazz Palminteri); uma atriz veterana brilhantemente vivida por Dianne Wiest ("don't speak") e John Cusack excelente no papel do dramaturgo inexperiente e indeciso. Conjunções perfeitas em um filme dos mais redondos.

 

Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, 1995)

A voz de Mira Sorvino é irritante, e Allen parecia consciente disso. A introdução reverente à tragédia grega soa um tanto deslocada, e o filme quase sucumbe em meio a uma desajeitada alternância de registros.

 

Todos Dizem Eu te Amo (Everyone Says I Love You, 1996)

Um musical ousado (pela opção de ser todo cantado pelos próprios atores que não tinham dotes musicais), divertido e quase tão bom quanto o Amores Parisienses de Resnais. É o mais próximo que Allen chegou de George Cukor.


Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997)

Algumas das melhores gags da carreira do diretor estão neste filme estranho e cínico como poucos. Incompreendido por muitos colegas na época, não resiste tão bem na memória, mas é um dos mais criativos de Allen.

 

Celebridade (Celebrity, 1998)

Kenneth Branagh fazendo a persona de Allen num filme em preto e branco que pouca gente deu bola, apesar da beleza de Charlize Theron.

 

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown, 1999)

Tributo desajeitado de Allen à música de Django Reinhardt.

 

Trapaceiros (Small Time Crooks, 2000)

Realmente engraçado em vários momentos. Mas sua irregularidade incomoda um pouco.


O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, 2001)

Dos filmes recentes - vai, dos últimos dez anos - este é o mais engraçado. Envolvendo hipnotismo e roubos, assistir a ele é ter a garantia de não esquecer tão cedo as palavras Madagascar e Constantinopla, com um sorriso inevitável acompanhando a lembrança.

 

Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, 2002)

Filme que completa uma trilogia involuntária do riso, antes de embarcar em alguns filmes equivocados e a um auto-exílio fílmico na Inglaterra.

 

Igual a Tudo na Vida (Anything Else, 2003)

Um dos dois únicos filmes de Allen rodados em cinemascope (o outro é Manhattan ), é também um dos mais fracos de sua carreira.

 

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, 2004)

Duas versões da mesma história. Uma cômica e uma dramática. Idéia boa desperdiçada.

 

Ponto Final (Match Point, 2005)

Allen na Inglaterra, contando uma história de crime que compensa. Um tanto desequilibrado na metade final, mas um filme a ser revisto.


Scoop (2006)

Injustamente malhado, este ligeiro e divertido filme tem o mérito de trazer a grande interpretação de Scarlett Johansson até hoje. O que não é pouco, convenhamos.

 

O Sonho de Cassandra (Cassandra's Dream, 2007)

O melhor filme desta nova fase do diretor corre o risco de cair na incompreensão de Dirigindo no Escuro e Scoop . Só que no caso de Cassandra, o tom é de um pessimismo como raras vezes pudemos ver em sua carreira. É o filme que mais se aproxima de uma influência recente e inconfessa, os filmes de Claude Chabrol nos anos 1980, e tem um belo dueto entre irmãos (no filme), o espertalhão Ewan McGregor e o desastrado Colin Farrell, com o tio Tom Wilkinson sendo o pêndulo fatal entre eles.

 

O Sonho de Cassandra por Francis Vogner dos Reis

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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