Cinema - Cultura - Comportamento
SOOM. (Coréia do Sul, 2007) de Kim Ki-duk. Com Chang Chen, Ha Jung-woo, Park Ji-a. Pandora. Projeção: 1.85:1 84 min.
Agora que Kim Ki-duk consegue chegar perto de realizar um bom filme ele é malhado pela mesma crítica que, desatenta, elogiava uma obra que buscava no choque o disfarce para suas limitações. Sim, estou falando de A Ilha, um dos filmes mais superestimados dos últimos anos, que abusava de planos "para estômagos fortes" mas se esquecia de colocar pessoas para viverem os dramas.
Em seu filme anterior a dar as caras por aqui, o razoável Time, Kim Ki-duk demonstrava ter aprendido que o choque por si só não basta, é necessário construir um entorno convincente e uma vivência condizente para que esse choque surta maior e mais prolongado efeito. Resultado: as reviravoltas da trama obedeciam unicamente às motivações dos personagens, sejam elas as mais loucas, ou as mais comedidas, e não somente à vontade de chocar.
Em Fôlego, vemos um maduro Kim Ki-duk tentando nos emocionar e provocar risos incomodados ao mesmo tempo. É uma ambição difícil de ser alcançada, e é louvável sua tentativa. Mas se o filme acerta ao não dar muitas explicações para as bizarrices que acontecem, mesmo ao sugerir respostas simplórias como uma vingança da mulher traída, ou a eterna atração despertada pela marginália, erra ao não construir com maior cuidado uma base segura para que as visitas dela não sejam tão esquemáticas quanto os estereótipos das quatro estações, ou que a cada visita ela avance um pouquinho em sua estratégia de sedução. Fica tudo muito marcado, simétrico de uma maneira pobre, com uma progressão que atenua o incômodo pretendido.
A curiosa imagem final dos três bonecos de neve simbolizando pai, mãe e filho não deixa de ser um fecho impactante, pois não dá para ignorar que ela foi produzida por pai e filho enquanto a mãe transava com o presidiário para logo depois tentar matá-lo, ou fingir que tenta matá-lo, como uma viúva negra. Esse plano final nos dá realmente pistas de que o cineasta está progredindo, bastando apenas tomar mais cuidado com suas estratégias ainda um tanto banais para filmar as cenas de choque. Penso sobretudo na imagem do policial gordo monitorando as visitas por um aparelho de TV, ou nas reações dos companheiros de cela.
Felizmente, também ficaram para trás as obsessões new-age soporíferas que marcavam bombas como O Arco e Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. Com alguns filmes anteriores ainda para ver (obras nunca lançadas no Brasil), vale acompanhar um curioso percurso de alguém que um dia pode ser um bom diretor.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
Para comprar os numeros antigos da versão impressa, clique aqui.