Cinema - Cultura - Comportamento
(Beggars Banquet - Importado)
Quinze anos adiante eu sua carreira discográfica, os Tindersticks lançam seu sétimo álbum (sem contar as duas trilhas sonoras para os filmes de Claire Denis e eventuais coletâneas e discos ao vivo), The Hungry Saw , e quem já conhece os anteriores sabe muito bem o que esperar desse novo:
a mesma mistura de delicadeza e dramaticidade, nas mesmas doses em gotas dos últimos discos. O som atual dos Tindersticks surge a partir do terceiro disco, com uma sensível atenuação das intensidades de arranjo que fazia a mestria dos dois primeiros trabalhos do grupo. De Curtains a Waiting for the Moon , portanto, nada da grandeza desgarrada de faixas antológicas como “Jism”, “No More Affairs”, “Talk To Me” ou “A Night In”. Mas ao mesmo tempo os Tindersticks ganham em tino de acessibilidade, lapidando os excessos de arranjo e pathos em nome de ideais de simplicidade e precisão. Ainda que essa fase não seja essencial como a primeira, há pérolas incríveis (“Can We Start Again”, “Are You Trying To Fall In Love Again”) de um pop barroco meio crooner, não muito distante de uma mistura entre Scott Walker e Nick Cave. The Hungry Saw não acrescenta tempero nenhum à receita, mas ela permanece certeira. Algumas melodias instrumentais adocicadas (“Intro”, “The Organist Entertains”), algumas melodias com vocação para single (“Yesterdays Tomorrow”, “The Hungry Saw”, “The Flicker of a Little Girl”), baladas desgarradas (“Boobar”) ou melancólicas (”The Other Side of the World”). As instrumentações de sempre aparecem: orquestra de cordas, órgão anos 60, piano, metais. E quando elas ganham atenção especial o disco chega em seus melhores momentos (“The Other Side of the World”, “E Type”).
Se a sensação inicial que se tem quando se escuta The Hungry Saw é uma ligeira decepção porque se tem mais do mesmo, as audições contínuas – ainda que não provem o contrário – mostram o quão ainda é envolvente e longe de saturado o universo dos Tindersticks. Mesmo longe do nível antológico de seus primeiros trabalhos, o mais recente disco do grupo britânico consegue atingir momentos de sutileza e beleza que não se encontra toda hora pela música pop.
Ruy Gardnier
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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