A Idade da Terra

(Brasil, 1980). De Glauber Rocha. Com Tarcísio Meira, Ana Maria Magalhães, Maurício do Valle, Antonio Pitanga, Jece Valadão, Norma Bengell. Formato de Tela: 2.35:1. 140 minutos.



Existem dois extremos na obra de Glauber: em um deles está Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, no outro, está A Idade da Terra. Existem outros filmes, talvez até melhores ( Di, por exemplo), mas são esses três que condensam não a obra, mas o mito Glauber Rocha. Mito, que se diga, que é uma praga: mais atrapalha do que colabora para uma apreciação mais íntegra da obra do diretor até hoje. O intelectual total, o artista definitivo, o vulcão criativo. Bobagens que despertam o que há de pior no Brasil historicamente no que diz respeito à cultura: a glamourização do messias imolado e sacrificado, a arte como ato precoce e excêntrico. Glauber fica ao lado de José de Alencar, Noel Rosa, Oduvaldo Vianna Filho, no que tange ao olhar regressista, à má consciência e ao sentimento de culpa, de (nas palavras de Glauber Rocha) “uma cultura eternamente frustrada” que mata seus gênios cedo demais.

Essa má consciência está no cerne do desprezo ao A Idade da Terra, seu último filme. Não só a má consciência, mas a mitificação feita em torno das obras mais famosas e cultuadas de Glauber. Se em Deus e o Diabo da Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro tínhamos “representação” e alegoria feitas de uma maneira que se pode criar leituras a partir de referências culturalistas, históricas, sociológicas, pictóricas, musicais e cinematográficas, com A Idade da Terra não se soube o que fazer. Parte da crítica brasileira e dos intelectuais, afeita a leituras um tanto simplistas da obra do diretor, não soube onde e como enquadrar esse monstro: não era fácil ver A Idade da Terra e adequá-lo a “sentidos” imediatos, a leituras, diagnósticos e prognósticos. A crítica estrangeira estranhou um filme do qual era difícil emitir uma opinião, por fugir da alçada de seus repertórios acomodados em certa noção conciliada (e contraditória) de cinema moderno. O júri de Veneza em 1981 desprezou o filme, mas também não poderia se pedir mais de uma comissão presidida por Gillo Pontecorvo (cineasta que podemos considerar o oposto radical de Glauber Rocha) e que contava com um crítico careta, decadentista e falsamente sofisticado como Michel Ciment.

A Idade da Terra seria o primeiro de uma série de projetos de Glauber que seria de construção de novos paradigmas a partir da herança velho mundo com as novidades representadas pelo novo mundo. Um esforço de construir um paradigma que é em si, híbrido. É, finalmente, onde Glauber Rocha integra Oswald de Andrade, desestruturando tudo o que a tradição instituiu, explodindo as estruturas, digerindo o que interessa, e vomitando o que não lhe convém. È necessário que se diga: A Idade da Terra não é negação do drama (e do teatro), da arte figurativa, da representação e das categorias de ficção e documentário, o que o diretor faz é abolir o sentido mais usual delas, é virá-las do avesso, é desmontá-las, em uma palavra, transfigurá-las. O último filme de Glauber é um trabalho, nada mais nada menos, de transfiguração. É onde culmina todo o cinema mais radical feito nos anos 70, como a das duplas Godard-Gorin, Straub-Huillet e Sganzerla-Bressane.

Se seus trabalhos anteriores eram (foram e são ainda em alguns casos) esgotados na boca de especialistas, teóricos e, sobretudo, a partir do discurso que se criou sobre seus filmes especificamente e sobre o Cinema Novo como um todo (e também sobre o moderno, o latino-americano, o revolucionário), em A Idade da Terra Glauber aboliu os nomes, fugiu das categorias, destruiu as estruturas de vez e confundiu as classificações para ficar somente com a substância pura, com o que interessa no cinema como meio autônomo de sentido. Lá está toda a herança, mas dela veio o radicalmente novo. É um trabalho pedagógico (inocente mesmo), como se ele desmontasse todo o cinema para ver como as coisas funcionam. Ele demonstra uma transformação permanente, em trânsito. Uma ressurreição (afinal, temos uma infinidade de Cristos translúcidos aqui), porque a morte (como algo que encerra UMA existência) não existe mais. Portanto, nada mais diferente de certa compreensão monolítica de sua obra, que muitas vezes a enclausura em sentidos muito fechados e imediatos. A Idade da Terra não é o testamento de Glauber Rocha, é seu MANYFESTO.

Francis Vogner dos Reis

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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