Cinema - Cultura - Comportamento
por Marcelo Miranda
Mais do que a propalada escolha de seis atores para interpretar o mítico Bob Dylan em fases distintas da sua vida, Não Estou Lá impressiona por, ao mesmo tempo em que varia o protagonista, varia tão ou mais intensamente o seu próprio caminhar. Em pouco mais de duas horas, o longa de Todd Haynes incorpora em si dezenas, ou centenas, de outros tipos de filmes. E mesmo quando termina, existe a sensação de que ele seria passível de durar mais umas três horas. Porque Haynes, em vez de querer mostrar ou apresentar Dylan ao espectador, implode qualquer expectativa e qualquer noção de narratividade e lógica de drama crescente para expor de forma frenética as complexidades do personagem, como se estivesse viajando ao lado dele nas suas diversas personalidades.
Há um misto de documentário, encenação, ficção, jogos de tempo, variação de cores, mudança de tons e ritmos, música, silêncio, delírio, planos longos, planos curtos e uma infinidade de outros artifícios. Não Estou Lá parece enquadrar todo tipo de cinema já feito e, mesmo assim, fazer-se genuíno e particular dentro do universo que retrata. As figuras referentes a Bob Dylan (nunca o nome do músico é pronunciado no filme, aliás) movem-se como num grande transe de imagens e sons, de diálogos e canções, indo e vindo não simplesmente por épocas distintas, mas por verdadeiras realidades diferentes. Os vários atores estão em vários mundos vivendo e testemunhando vários conflitos sobre suas várias facetas. Vários, vários, vários - não por outro motivo, o filme é assumidamente inspirado nas "várias vidas de Bob Dylan", como constam nos letreiros iniciais. "Eu aceito o caos. Só não sei se ele me aceita", diz uma das encarnações do cantor, aparentemente falando do próprio filme, o que soa oportuno dentro daquele emaranhado quase sempre estonteante que nos aparece diante dos olhos.
O caldeirão de referências que assombra a cada corte e a cada novo enquadramento, sempre tirando o tapete do espectador por não compactuar com qualquer noção de previsibilidade, guarda muitas semelhanças com o que faziam gigantes como Jean-Luc Godard e Orson Welles. Do primeiro, Haynes absorve o início de carreira (especialmente trabalhos como Acossado , Uma Mulher é uma Mulher e Viver a Vida ) na implosão de gêneros que, revirados em sua origem, renascem como algo novo – no caso de Não Estou Lá , a grande "vítima" no processo é a famigerada cinebiografia, tão encaretada por filmes recentes como Ray e Johnny e June .
De Welles, o diretor capta a mistura de linguagens, utilizada, assim como em Cidadão Kane e Grilhões do Passado , para esvaziar qualquer sentido simbólico do protagonista e transformá-lo, essencialmente, num personagem de cinema – que, justamente por nos soar tão verdadeiro e espontâneo dentro da tela, reflete fortíssima carga de realismo. Há grande diferença entre um filme que tenta ser realista de outro que busca captar o real. No paroxismo de artificialidades e trapaças infinitas de Não Estou Lá , emana um sentido de verdade profunda apenas possível dentro de uma arte como o cinema, por lidar com as incontáveis possibilidades da imagem de acordo com as vontades do realizador.
A presença de atores de características tão diferentes como Richard Gere, Heath Ledger, Christian Bale, Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw e Cate Blanchett reforça a noção de variações mil tratadas pelo filme. Cada um deles imprime jeito próprio de lidar com o personagem, e a mágica está em o filme nos fazer crer (e ele consegue) que todos estão interpretando a mesma pessoa – por mais que as diferenças sejam gritantes. Blanchett destaca-se por Haynes explorar nela uma androginia até então desconhecida, mas que, no filme, reflete à perfeição aquele momento específico de desilusão e cobrança pelo qual passa sua faceta-Dylan. A atriz deixa de ser a mulher que conhecemos de outros trabalhos para se transformar em outra das instigantes imagens que povoam o filme.
E ainda que pensemos para além do que representam essas imagens em Não Estou Lá , é de Bob Dylan que se está falando o tempo todo. Todd Haynes faz um experimento cinematográfico dos mais complexos e elaborados sem jamais deixar de se referir ao seu anti-herói. Nunca o cinema suplanta a vida no filme de Haynes. A grande vitória do diretor, portanto, é fazer transpor essa vida para dentro do cinema sem render-se a ela. Coisa de mestre, e Todd Haynes só não recebe tal alcunha agora porque ainda deve ter muitas surpresas reservadas a nós na sua ainda incipiente carreira.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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