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INDIANA JONES AND THE KINGDOM OF THE CRYSTAL SKULL. (EUA, 2008) De Steven Spielberg. Com Harrison Ford, Karen Allen, Cate Blanchett, Shia La Beouf, Jim Broadbent, Ray Winstone, John Hurt. Paramount . Projeção: 2.35:1 124 min.
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A primeira cena de Indiana Jones 4 mostra um comboio de carros militares que é jocosamente convidado a um racha por alguns jovens saídos de American Graffitti. Mais tarde esses jovens voltarão, até que a trama saia definitivamente dos EUA. A iconografia da década de 50, segundo Lucas e Spielberg, parece passar unicamente por Milk Shakes, roupas de bolinhas, mulheres de cabelos presos e homens de topetes vestindo jaquetas de universidades. O cuidado, o espectador percebe logo, é para tornar mais fácil a identificação com os vilões clássicos da época - os comunistas.
A ação se passa em 1957, vinte e um anos depois de Indy ter lidado com nazistas execráveis no filme inicial, e dezenove anos após o reencontro com o pai Sean Connery em Indiana Jones e a Última Cruzada. 1957. Vampiros de Almas ainda estava fresco no imaginário americano - extraterrestres e comunistas ligados por uma parábola banal e eficiente. É o ano da morte de Joseph McCarthy, já com sua caça às bruxas mais suavizada - o que não impede a seguinte fala: "hoje em dia não se pode confiar em ninguém", do reitor interpretado por Jim Broadbent ao professor Indy, e um certo trauma que fazia com que todos sentissem medo de qualquer associação com os "demônios vermelhos do leste".
A nova aventura do arqueólogo o leva para a floresta amazônica, onde uma civilização desaparecida e misteriosa parece esconder mais mistérios do que a resistência de nosso herói permite. Sua curiosidade é a de um jornalista, o que talvez explique a profusão de frases de efeito que saem de sua boca. É também um galanteador nato, além de um maníaco por ação e perigo ("se quiser ser um bom arqueólogo, não passe tanto tempo numa biblioteca", diz a um aluno que encontra no meio de uma perseguição que invade lugares proibitivos).
Mas os encantos maiores desta nova fábula são, em doses mais ou menos iguais: a maior presença de momentos cômicos de toda a série, e o respeito lúdico com os filmes antigos que fizeram a fama e o culto ao cineasta - além dos Indianas , Contatos Imediatos do Terceiro Grau, E.T. e 1941 - Uma Guerra Muito Louca .
Desde a introdução de Indy, por uma sombra no carro, e algumas notas do tema clássico de John Williams se insinuando, lidamos com um diretor que sabe valorizar os ícones de sua carreira pregressa, trabalhando-os como forma de amarrar o espectador nesse delírio nostálgico, no qual a ação deve ser ainda mais inverossímel e inconsequente, para não ficar atrás dos tempos - ainda que as cenas de ação só utilizem efeitos CGI no mínimo necessário, sendo na maior parte rodadas à moda antiga, com dublês e uma câmera sempre atenta às movimentações dos atores pelo espaço.
Em Indiana Jones e o Templo da Perdição, 90% das salas de cinema cheias davam risada da cena em que o carrinho voa e cai muitos metros depois, encaixando perfeitamente nos trilhos de uma estrada que havia sido interrompida. Há uma descrença muito grande com o que se passa na tela, e na época (1984) isso ainda não era tão comum no filme de ação. Aceitava-se a inverossimilhança desde que guardados certos limites, rompidos pela mente travessa de Spielberg naquele segundo epísódio, e ridicularizados pela mão de gênio de James Cameron em True Lies. Hoje em dia essas cenas abertamente absurdas já não causam mais embaraços, e Spielberg é muito feliz ao se abrir a elas de maneira que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal consegue bater todos os recordes da inconseqüência.
A seqüência da perseguição na selva é um belo exemplo do absurdo que invade o filme: temos a caveira de cristal passando, ou melhor, pulando de mão em mão, carros fazendo manobras impossíveis, luta de espada com dois carros em movimento, saltos mortais por entre arbustos e mirando outro carro, exército de macacos convocado em questão de segundos, carro anfíbio caindo de três cachoeiras assustadoras, formigas gigantes devorando gente e fazendo pirâmides que lembravam a propaganda do MSN que passa antes dos filmes, tudo é digno de um desenho animado. Por sinal, a presença de Cate Blanchett é digna de quem viu muito Johnny Quest e Scooby-doo quando criança (ou vê alucinadamente até hoje). A especialista em sotaques aparece sempre de modo caricatural, acentuado por um penteado e figurino risíveis, fazendo caretas das mais engraçadas quando confrontada pelo herói. Mais ainda do que Speed Racer, é um grande desenho animado com atores, só que diferentemente do filme dos irmãos Wachowski, que utiliza a computação gráfica para criar uma ambientação abstrata e coloca seus atores nesse espaço colorido e psicodélico, Indiana Jones 4 é todo dramaturgia, e é pensado como paródia, não dos filmes da série, mas do que dizem sobre Spielberg ter a síndrome de Peter Pan.
Por essas razões o filme se arrisca a desagradar boa parte dos fãs do herói, saudosos do chapéu e do chicote usado no lugar do revolver. Além do mais, o chicote quase não entra em cena, e o chapéu some na metade do filme, para voltar em uma cena hitchcockiana no final, que serve também para brincar com o possível herdeiro interpretado por Shia La Beouf. Ele, aliás, recebe de Indiana dois olhares análogos ao que Indy lançou ao pai na cena das gaivotas em Indiana Jones e a Última Cruzada. Olhares que são mais do que de aprovação, mas de identificação, de confirmação de uma herança. Detalhes assim engrandecem o filme, que sabe rir de si mesmo, é muito hábil em misturar gêneros corajosamente e até em brincar com a possibilidade de continuação. Tem um ator carismático como poucos, Harrison Ford, e coadjuvantes perfeitos, com destaque para Ray Winstone, como o ganancioso e eterno traidor.
Sérgio Alpendre
Os outros filmes da série:
Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981)
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Um marco do cinema de aventura, teve uma série de imitadores nos anos seguintes, que se esqueciam de que Caçadores já era uma imitação dos filmes de aventura com Errol Flynn e de Gunga Din .
Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984)
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Sorvete de miolos de macacos e corações arrancados a mão. Além de uma seqüência primorosa de abertura.
Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)
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Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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