Juventude

SOMMARLEK. (Suécia, 1951). De Ingmar Bergman. Com Maj-Britt Nilsson, Birger Malmsteen. Versátil. Projeção: 1.33:1. 92min.



Antes de abusar de closes para chegar à maior expressão do ator, Bergman era muito feliz ao filmar corpos. Corpos jovens que se atraem, se chocam, se amam. Juventude, Divino Tesouro , nesse sentido, poderia ser considerado uma espécie de ensaio para Mônika e o Desejo , filme de 1952 que arrebatou finalmente a crítica com seu erotismo inescapável. Com Juventude , Bergman descobriu sua maior habilidade: usar sua experiência no teatro para buscar sempre a expressão máxima dos atores. Expressão não só facial, mas principalmente dos corpos, das curvas que constituem segredos que a câmera insiste em revelar apenas parcialmente.

A luz na maioria desses filmes anteriores a Noites de Circo (1953) é uma luz de verão, que se transforma progressivamente numa luz opaca, de um eterno crepúsculo. Não é a toa que o título original de Juventude quer dizer, aproximadamente, Ato de Verão (também pode ser Jogo de Verão), numa alusão ao balé, mas também a uma espécie de retiro espiritual que a faz lembrar de um verão anterior, quando era mais moça e atingia o auge de sua carreira, e de seu envolvimento de final trágico com um rapaz. A sensação que acomete a bailarina é de que sua vida estaria prestes a se encerrar, por conta da curta duração de sua arte.

Dessa forma, toda sua jornada é permeada pelo contraste entre juventude e velhice, sendo que seu dilema é o de ser jovem o suficiente para quase tudo, mas velha demais para que sua maior paixão fique longe de se acabar. Em seu retiro, ela lembra do jovem que amou no verão passado, de quando foi buscá-lo em sua casa e encontrou sua madastra, a morte personificada, jogando xadrez com um padre. Essa personagem enigmática parecia antever o que aconteceria com seu amante - morto por causa de um mergulho descuidado. Sua volta ao balé só foi possível com uma total anulação de si mesma. Anulação que não escondia o fato de que estava envelhecendo. Ela literalmente "se escondeu por detrás de uma muralha". Após o encontro com o mágico no camarim, bailarino que se tornou também coreógrafo, eternizando sua arte - e de certa maneira a antítese da morte no filme -, ela tem o enfrentamento com o jornalista, irriquieto, que insinua amor eterno a ela. Ela se abre, então, à inevitabilidade da vida que passa. Esvazia seu rosto da maquiagem que procurava esconder as rugas, acerta as contas com a decadência de sua carreira, e, paradoxalmente, volta a exibir o melhor de sua forma no palco.

O último plano dramatúrgico, aquele que dá conta do desfecho da história, mostra seus pés adotando uma posição vertical, como no passo clássico de um balé. Sabemos que ela beija o jornalista entusiasmadamente, mas só vemos os pés, no movimento que busca o encontro, para depois se afastar, e dar passinhos meigos para o meio do palco. Aceitando que não pode ser eterna, ela consegue, finalmente, atingir uma tão sonhada felicidade, mesmo que efêmera.

Sérgio Alpendre

O Rosto, por Luiz Soares Junior

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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