Margot e o Casamento

MARGOT AT THE WEDDING. (EUA, 2007) De Noah Baumbach. Com Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh, Jack Black, John Turturro. Universal. Formato de tela:1.85.1 93 min.



Margot e o Casamento é um filme de terror, apesar de que você não o verá descrito dessa maneira. O projeto de cinema de Noah Baumbach parece ser pegar todo um universo de ressentimento e embalá-lo com boas maneiras; com o resultado de torná-lo muito mais desagradável. Se no seu anterior A Lula e a Baleia, a mistura de teor autobiográfico com distanciamento temporal da ação combinavam para, via nostalgia, dourar a pílula do filme um pouco (Ruy Gardnier chegou inclusive a escrever todo um artigo muito interessante, se um pouco condescendente, sobre filmes bonitos a partir dele), nada similar se verá neste novo filme.

Baumbach passa ao largo da maior parte dos efeitos que poderiam amenizar o filme: a fotografia de Harris Savides passa ao largo das composições e jogos de luz que possam embelezar em excesso as imagens, nenhuma moral à cada um tem suas razões, etc. Baumbach faz uso preciso de seus dois maiores talentos – um bom ouvido para crueldade nos diálogos e tato para com os atores (especialmente os mais jovens) – para criar uma panela de pressão crescente. Seu filme se constrói a partir de longas correntes de ressentimento familiar patológico que surge em meio a um constante comportamento passivo agressivo de cada personagem em cena. Baumbach é bastante hábil em sugerir as feridas da história comum daqueles personagens e o como ela desemboca naquele local especifico. A antiga casa de família é observada com cuidado de forma a sugerir toda uma geologia de relacionamentos mal resolvidos que ainda vivem ali prestes a reemergirem.

Se Margot e o Casamento é um filme de terror, sua personagem-título é uma espécie de Freddy Krueger verbal deixando grandes quantidades de sangue apenas com palavras bem escolhidas para atingir todos a sua volta. Interpreta com impressionante ausência de vaidade por Nicole Kidman, ela chega a antiga casa da família para o casamento da irmã (Jennifer Jason Leigh), com quem não fala há alguns anos, e procede em sabotar o evento. Que o noivo seja interpretado por Jack Black é um dos muitos achados do filme, já que seu público-alvo deve se sentir tão horrorizado com a presença do comediante no filme quanto a esnobe Margot com o prospecto daquele sujeito se casando com a irmã.

Baumbach afirma que concebeu o filme como uma homenagem a Eric Rohmer e é impressionante a maneira como a apropriação cultural ocorre: é possível observar lampejos de inflûencia do cineasta francês – especialmente em certos dialógos e opções estruturais –, mas nunca chamariamos Margot de um filme rohmeriano. É também um passo importante de Baumbach para se distanciar de outros cineastas com quem é freqüentemente relacionado (Wes Anderson, Whit Stillman). Como exercício de história e geografia de feridas familiares, seu filme é marcante.

Filipe Furtado

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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