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(Tratore)
Este primeiro álbum solo de Fernanda Takai não é apenas a primeira incursão individual de uma vocalista de uma banda de sucesso. Ele é um disco de versões, com uma deixa bastante particular: uma homenagem a Nara Leão. Esta homenagem, ao que tudo indica, vai além de qualquer desejo de se colocar lado-a-lado com grandes medalhões da MPB, ou de aproximar seu trabalho da majestade de clássicos de nossa música. O que Takai faz é, sobretudo, um trabalho de re-interpretação, uma releitura de músicas de acordo com seu mundo particular. Por isso chamá-lo de homenagem: é a partir de onde a sensibilidade da cantora encontra outras, seja a de Nara Leão como intérprete, seja a de compositores como Caetano Veloso, que ela irá tecer o universo do álbum.
Este universo é, logicamente, parente muito próximo daquele que permeia as canções do Pato Fu, especialmente nos últimos álbuns. E se nos trabalhos da banda ele sempre ganhou seus contornos definitivos na delicadeza e precisão da voz de Takai, aqui não é diferente. Mixada sempre acima dos instrumentos, sua voz estabelece um terreno de superfície, no qual os sentimentos são dispostos em chave menor; sentimentos ligados à sua percepção característica do viver a vida. O resultado lembra um pouco o trabalho de Adriana Calcanhoto, no qual são as nuances e sutilezas que ditam a emoção.
Os arranjos épicos que atribuíam densidade e drama a crônicas cotidianas e/ou de costume nas versões originais das músicas – como no caso de “Lindonéia” e “Com Açúcar, Com Afeto” – são então substituídos por batidas mais leves e sons mais pop, conferindo a sentimentos um quê insólitos no contexto de uma vivência rotineira, um clima de banalidade. Neste novo ambiente, Takai destila as letras antigas como entoa as suas próprias: expondo-se em sua fragilidade emocional para dar voz a canções silenciosas do dia-a-dia, permeadas de uma agudez perceptiva, de um certo olhar infantil aos mandos e desmandos do mundo e, por que não dizer, de uma dose de melancolia também.
Sua interpretação, portanto, não segue a lógica da personificação e incorporação de pequenos dramas e tragédias, como é freqüente em Chico Buarque, por exemplo, mas a da enunciação interna de afetos. E a melancolia advém justamente do encontro deste interior, vulnerável e desprotegido quando se enuncia, com os fatos exteriores do mundo e com o vir-a-ser do tempo. (Não fosse pelo bom humor e por este gosto da crônica à brasileira, talvez Takai e o Pato Fu estivessem mais próximos da teia de emoções de um Radiohead do que de qualquer músico brasileiro.) O que temos é um intercruzamento entre observação/relato e expressão da alma, no qual uma sensibilidade de outro tempo é retrabalhada de acordo com uma sensibilidade atual – algo maravilhosamente atingido em “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos”.
Onde Brilhem os Olhos Seus evolui como se fosse preciso afinar o ouvido e o coração para perceber nuances que saíram de moda num mundo que corre preocupado com outra lógica de funcionamento, uma lógica alheia às relações entre as pessoas. Neste sentido, a canção que parece guardar a chave para o álbum é a mesma que lhe fornece o título, “Seja o Meu Céu”, na qual os versos lêem: “estarei desenhando um outro céu onde brilhem os olhos seus”/ “seja o meu céu, seja o seu céu”. Trata-se, pois, de buscar um brilho onde quer que ele esteja, e traduzi-lo da forma como se o vê. Por esta franca afirmação de um percurso autêntico e em diálogo com o seu entorno, Fernanda Takai confirma-se como um dos expoentes mais atraentes da nossa música pop hoje.
Tatiana Monassa
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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