Cinema - Cultura - Comportamento
SOLNTZE. (Rússia/Japão, 2005). De Alexansandr Sokurov. Com Issei Ogata, Robert Dawson. Projeção: 1.66:1. 116min.
![]()
Alexandr Sokurov pode ser por vezes um cineasta muito afetado. Seu gosto pelas composições de grande impacto e força visual podem impressionar muito, especialmente quando tomamos contato com elas pela primeira vez, mas ao mesmo tempo sua obra com freqüência parece sofrer com a falta de um centro, belas imagens sustentadas quase exclusivamente pelo decadentismo do cineasta (combinação que chegou perto do insuportável em Pai e Filho , filme anterior do cineasta a estrear por aqui. Se mencionamos tudo isso é justamente porque O Sol é um grande alento na filmografia recente de Sokurov, com o tom maçante que vinha dominando seus trabalhos mais recentes se dissipando por causa de um homem: o imperador Hirohito encarnado por Issei Ogata.
Desde o primeiro plano de Ogata não restam duvidas de que, pela primeira vez em muito tempo, um filme de Sokurov tem um centro (basta comparar com o Lenin cadavérico de Taurus , por exemplo). O Sol se concentra no dia a dia do imperador ao final da segunda guerra com o Japão derrotado e ocupado pelos americanos. O filme é dominado por essa figura mitológica e não deixa de ser um achado dentro das preocupações habituais do cineasta essa posição divina ocupada pelo imperador japonês. Perto do seu final, quando o imperador precisa renunciar esta posição, O Sol alcança uma dimensão trágica que há tempos seu cineasta parecia buscar, suas preocupações todas filtradas dentro deste movimento do protagonista. Aqui deve-se destacar que a pompa de Sokurov (especialmente na cor dessaturada da fotografia e nos movimentos de camera) reforça o caráter de suicídio metafisico operado por Hirohito. A forma tranquila com que Hirohito encara todo o processo diz muito sobre o frescor e a perspicacia com que Sokurov se conduz dessa vez.
Sokurov é bastante hábil em nos oferecer nas bordas um retrato do Japão arrasado pelo esforço de guerra e como ele reflete e é refletido por Hirohito. A camera flutua sobre Hirohito analisando com grande curiosidade cada movimento que Ogata (cuja presença de cena é notável) realiza pelos cômodos do palácio imperial adiando sua decisão inevitavel, assim como a forma com que ele se relaciona com todos à sua volta. As melhores seqüências do filme são justamente os encontros de Hirohito com os americanos (o momento em que Sokurov filma os soldados americanos a observar Hirohito é dos melhores de sua carreira). O que torna O Sol um belíssimo filme é o olhar atento com que capta estes momentos.
Filipe Furtado
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
Para comprar os numeros antigos da versão impressa, clique aqui.