Cinema - Cultura - Comportamento
SAVAGE GRACE. (EUA, Espanha, 2007) De Tom Kalin. Com Julianne Moore, Stephen Dillane, Eddie Redmayne. California . Projeção: 1.85:1 96 min.
Olhares e instantes parecem o que mais importa ao diretor Tom Kalin no desenrolar de Pecados Inocentes . Todos os personagens estão se olhando a todo instante: a mãe para o bebê, o marido para a esposa, novamente a mãe para o garoto em fase de crescimento, novamente o pai para a amiga do filho. E em cada olhar desses, Kalin imprime gama imensa de sentimentos, sensações, anseios e angústias que irão, aos poucos, moldando os rumos do filme até o desfecho perturbador. O fim de Pecados Inocentes , aliás, é a súmula de todos esses olhares. Não é à toa que Julianne Moore posiciona-se de frente a Eddie Redmayne na hora da transa no sofá: eles ficam cara a cara, olho a olho, e o sexo se consuma nesse olhar trocado.
Em relação aos instantes, o filme, sintático em seus 96 minutos, valoriza os momentos de interação entre os personagens. Antes de querer decifrar os motivos de cada um, Kalin prefere se ater a captar pequenos registros de intimidade em tempos distintos da vida daquelas pessoas. Daí as elipses funcionarem não apenas como saltos temporais, mas também como somatório de fatos e acúmulo de mágoas e dores. Pecados Inocentes foge de qualquer tentativa de psicologismo de botequim e joga para a imagem (e sua fortíssima crença nela) as resoluções do que narra na tela. É um filme de tensão crescente e constante preparação a um clímax claramente sentido desde as primeiras cenas. Porém, não existem maiores artifícios a nos prepararem para o choque. Se ele acontece, é puramente porque o filme nos mostra-o explicitamente, de forma seca e direta, sem colocar na boca dos atores cartilhas explicativas de suas ações.
É muito curioso o impacto que Pecados Inocentes é capaz de proporcionar a quem estiver disposto a absorver sua discreta complexidade. O filme parece escolher a dedo os anos que lhe interessam dentro do período a ser contado e narra os acontecimentos dentro desse recorte. Nessa linha, Kalin escolhe os trechos mais próximos da não-ação, do não dito, do não feito. As melhores cenas são justamente aquelas em que nada parece estar acontecendo (casal conversando sobre bebê, mãe e filho na cama dormindo com o michê, os papos íntimos entre todos eles).
O diretor consegue ser cru sem jamais deixar de ser emocional, muito disso por conta da entrega dos atores – especialmente, claro, Julianne Moore. Ela encarna com graça e cinismo a mulher que subiu de classe social por conta do casamento, lançando para o filho toda a carência que o abandono do marido causou a ela. Os gestos singelos, o rosto ora convicto, ora extremamente fragilizado, o corpo que se move sensualmente a desejar o prazer com o filho, toda essa gama de elementos coloca a atriz novamente no patamar das grandes intérpretes do cinema contemporâneo.
E em meio a todo o choque proporcionado pelos desdobramentos do enredo e pela sensibilidade de Kalin, Pecados Inocentes ainda consegue inserir questões bastante pertinentes sobre relações em sociedade, especialmente na forma como marido e mulher se tratam no filme (a desilusão com o casamento aparece claramente). Como quase tudo aqui, nada está explícito na tela, e é toda essa negação em explicar, enumerar ou definir o que torna Pecados Inocentes um trabalho a se atentar.
Marcelo Miranda
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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