O Preço de uma Vida

CHRIST IN CONCRETE/GIVE US THIS DAY. (Inglaterra, 1949). De Edward Dmytryk. Com Sam Wanamaker, Lea Padovani, Kathleen Ryan. Lume. Formato de tela: 1.33:1. 120 min


Hollywood também não passou impune à emergência dos chamados cinemas modernos logo após o fim da segunda guerra mundial. A influência se deu principalmente sobre autores preocupados em, naquele momento, conectar seus filmes à realidade que o pós-guerra havia imposto aos cidadãos nas ruas. Isso aconteceu com o cinema de Edward Dmytryk - bastar lembrar de filmes como Until the End of Time e End of Affair -, muito embora sua aproximação dos fatos e dos personagens tenha se dado muito mais sob um prima psicológico e espiritual. Seus personagens eram seres instáveis, traumatizados pelas cruéis conseqüências da guerra. A realidade fria e mecânica do conflito poderia supor o oposto, mas Dmytryk nunca deixou de mostrar o ser humano sob o ponto de vista de suas fragilidades emocionais.

Ironicamente, a temática de seu filme mais neo-realista, por assim dizer, não tem exatamente relações com os traumas do pós-guerra. Por outro lado, O Preço de uma Vida, possui características comuns à visão de mundo exposta pelas obras de seu diretor. As privações sociais e o sofrimento a que a família italiana de imigrantes, protagonistas deste filme, são expostos em uma Nova York em vias de se transformar numa das maiores metrópoles do mundo, muitas vezes, não nos permitem confiar plenamente na sanidade de suas atitudes. A extrapolação dos limites emocionais desses personagens não deixa de ser, ao mesmo tempo, no limite, a exposição de questões intrínsecas aos modos de vida possibilitados a partir do século XX: o surgimento das grandes metrópoles modernas, a possibilidade fácil de trabalho dentro do sistema de construção dessas megacidades, o surgimento do sistema de capital financeiro e a forma como ele passa a incidir na vida do cidadão comum, a fragilidade desse sistema. Dmytryk filma a brecha que existe entre o fio de esperança e o nada, o homem em desvantagem frente às forças que ele mesmo criou. Não à toa, este filme flerta com o neo-realismo, mas também com o melodrama.

Geremio, personagem principal de O Preço de uma Vida, deixa a Itália para trabalhar como pedreiro da construção civil, em Nova Iorque. Anunzziata, a mulher com quem mais tarde se casa, chega da Itália algum tempo depois. Com ela, chegam também o sonho de construir uma família e de possuir a própria casa. Este é o sonho do homem comum que leva a vida passível de ser sugada pela dinâmica opressiva da nova era. Talvez, este também seja o mundo onde o homem comum não pode querer viver sua vida comum impunemente. Depois de ter se corrompido, Geremio tem um trágico fim, numa cena sóbria e inesquecível. A cena final, quando Anunzziata deixa o tribunal depois de receber a informação da indenização pela morte trágica do marido é uma obra prima absoluta. Ela segue na frente com três dos filhos, o quarto deles vem por último, fecha a porta e corre para alcançar a mãe. A expectativa de Dmytryk para o destino do garoto já está ali sugerida

Liciane Mamede

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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