Quebrando a Banca

21. (EUA, 2008) De Robert Luketic. Com Jim Sturgess, Kate Bosworth, Kevin Spacey. Columbia. Projeção: 2.35:1 123 min.



Hoje em dia só se é moderno em cinema quem souber explorar todas as possibilidades que o roteiro tiver para ludibriar o espectador (falo obviamente de uma noção de modernidade obtusa destes dias). Não basta mais captar a essência de um estado de coisas, tem que se inverter a lógica a todo momento, pensar na frente do espectador, explorar os pontos falhos da concentração de cada um na platéia. Quebrando a Banca tem uma série de reviravoltas perto de seu final, e a maioria reside na obviedade grotesca, a não ser a maior de todas, que pede para que esqueçamos qualquer noção de realidade para que seja aceita. Não convém escrever aqui qual é essa reviravolta, a não ser deixar bem claro que ela é bastante óbvia também dentro de uma lógica quadrúpede, e bem esperada, se levarmos em conta a baixa capacidade dos envolvidos - o diretor Robert Luketic fez o simpático Legalmente Loira , mas depois realizou o intragável e estúpido A Sogra. Uma virada completamente absurda na trama, que faz com que o filme tenha um desfecho espertinho, mas bem idiota.

Talvez o maior agravante a essas reviravoltas todas é que elas não encontram o estofo necessário no elenco. Ou melhor: são catalizadas por uma direção de atores equivocada, que teria sua razão de ser num programa chulo de humor, nunca num filme que quer se passar por esperto. E aí é que a porca vira fumaça, pois todos os atores estavam bem durante a primeira hora do filme. Kevin Spacey estava perfeito como o professor muito inteligente à procura de um seguidor para suas estratégias no jogo de cartas. Sua feição, misturando alegria quase incontida com a sensação de ter achado o discípulo reflete muito bem o potencial do ator.

Jim Sturgess tem uma cena exemplar, que comprova certo potencial, quando ele está atendendo um casal na loja de roupas em que trabalha e recebe a visita de uma aluna pela qual ele está apaixonado, e que quer convencê-lo a entrar na turma de vigaristas que pretendem ganhar dinheiro em Las Vegas. Ele engole seco, tem a voz trêmula de quem está profundamente nervoso e emocionado com a visita, dá sorrisos tímidos, de quem está praticamente entregue à outra pessoa.

Com o desenrolar do filme, ambos começam a derrapar num overacting que parece ser resultado de uma orientação para não deixar a menor possibilidade de algo passar despercebido pelo espectador. Cada movimento recebe um gestual não só condizente com o que seria o esperado, mas com o que é facilmente identificável como tal por qualquer pessoa que esteja vendo o filme, e essa preocupação excessiva com o que pode ser entendido faz com que os atores se percam num exagero interpretativo que coloca tudo a perder.

Spacey vira um canastrão de primeira, digno dos piores momentos de um Jack Nicholson - guardadas as proporções do talento de cada um -, e Sturgess arregala os olhos para mostrar que viu os sinais dos companheiros de falcatruas, ou para deixar claro que não está se sentindo bem em alguma situação, ou simplesmente para demonstrar que está cheio de si. De repente, vira um ator medíocre qualquer.

Outra coisa a se lamentar é o código de sinais inventados para ganhar sempre no 21. Custava colocar algo menos escancarado do que uma espreguiçada com um braço segurando o outro por trás? Qualquer olheiro mais esperto teria sacado que aquilo poderia ser um sinal para alguém, tamanha a falta de jeito, e Bosworth, principalmente, realiza esse gesto de maniera grotesca, como se quisesse ser apanhada. Com tantos descuidos, tanta vista grossa aos detalhes que poderiam ser um algo mais, tanto despreparo na condução do elenco e de como ele se comporta no decorrer dos acontecimentos, não tinha como Quebrando a Banca ser muito mais do que um fracasso como cinema. Mas parece que é isso que o público quer, haja visto o sucesso que tem feito no circuito.

Sérgio Alpendre

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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