Cinema - Cultura - Comportamento
por Marcelo Miranda
O retorno de John Rambo ao cinema tem tudo para vir cercado de preconceitos e olhares tortos em cima da imagem icônica do "exército de um homem só a serviço dos EUA", muito por conta de "Rambo II" (1985) e "Rambo III" (1988) - ambos projetos da Era Reagan, marcada por intervenções norte-americanas ao redor do mundo ainda num contexto de Guerra Fria. Porém, mesmo um trabalho caça-níquel e oportunista como é este "Rambo IV" tem seu valor na medida em que entendemos sua proposta, a forma como o ator- diretor-roteirista Sylvester Stallone levou-a a cabo e como uma figura tão anacrônica como Rambo ainda é capaz de ganhar fôlego em tempos pós-11 de Setembro.
Na verdade, o novo filme parece refletir a desilusão de Stallone com a própria realidade que o cerca. Por mais que a ação se dê na longínqua e quase anônima Birmânia (atual Mianmar, no sudeste asiático), nunca se deixa de refletir forte desilusão com os rumos políticos dos EUA, expressados pelos equívocos de George W. Bush. John Rambo está isolado na Tailândia e apenas volta à ativa quando se envolve afetivamente com uma missionária seqüestrada. O que move Rambo na nova aventura - pasmem! - é o coração.
Que não se enxergue aqui crítica negativa a essa escolha de Stallone em retomar o soldado guerrilheiro sob viés sentimental. Pelo contrário: se recapitularmos os filmes anteriores, todos tinham tal elemento de apego a alguém: no primeiro (e excelente) "Rambo - Programado para Matar" (1982), há a busca de um antigo amigo dos tempos de Vietnã, acompanhada pela tristeza de descobri-lo morto, sentimento primordial para a selvageria que tomará conta do personagem ao se defender das injustiças do xerife local; no segundo filme, há a asiática que ajuda o soldado e logo é morta, deixando com ele um pingente que o motivará até o fim; e "Rambo III" mostra-o em busca do tutor e figura paterna Coronel Trautman no meio do conflito entre sovíeticos e americanos no Afeganistão.
Tudo nesses filmes é devidamente "isolado" pelas motivações políticas e armamentistas em prol do país (com exceção do original, espécie de alienígena numa trilogia que ficou menos marcada pela construção de um personagem atormentado do que por suas ações violentas e cruéis). Mesmo em "Rambo III", o protagonista se desloca atrás de Trautman e inevitavelmente acaba servindo aos interesses dos EUA na região afegã.
Em "Rambo IV", John novamente está por sua conta e risco, sem servir a governo ou ideologia alguma — como era no primeiro filme. O que existe é o ceticismo em torno de qualquer tentativa de salvar o povo da Birmânia. Nesse sentido, torna- se incrivelmente coerente o fato de Rambo não se esforçar para proteger um birmanês que seja, enquanto parece ser válido qualquer movimento para retirar os missionários de território inimigo. Ora, se está expresso na tela desde a primeira imagem aquela criatura gélida e pedregosa que insiste na impossibilidade e inutilidade de se meter em assuntos alheios (guerra civil e afins), não há porque cobrar do filme alguma postura ética ou politicamente correta. Stallone foge da demagogia e do oportunismo ao oferecer ao público aquilo que realmente deve ter lhe feito voltar a Rambo: inserir o personagem numa realidade a qual ele não controla e fazer dele peça exterior de um conflito que não lhe diz respeito.
Stallone realiza esse processo à base de uma violência jamais vista nos filmes anteriores (e, vale registrar, bastante auxiliada pela computação gráfica). Antes de querer demonstrar senso de realidade, o grafismo de "Rambo IV" beira o caricatural na sua tentativa de chocar, via cabeças pulantes, vísceras que caem, pernas e braços decepados e pescoços cortados. Stallone se adequou aos novos tempos acreditando fortemente numa certa máxima retirada de Thomas Hobbes de que o homem é o maior devorador de si mesmo. À base de frases prontas (a desde já antológica "quando você é pressionado, matar é tão fácil quanto respirar") e a atração irresistível pela beleza da missionário, o personagem segue caminho mata adentro, testemunha torturas bárbaras contra os nativos e, ao fim, olha para seus próprios fantasmas e retorna para casa.
Se "Rambo IV", dentro de uma escala de valores artísticos, não pode necessariamente ser considerado um bom filme - ou, no mínimo, deva ser visto como um filme repleto de problemas -, isso não significa que ele seja passível de descaso, deboche ou desrespeito. Porque Stallone está ali por inteiro, acredita fortemente no niilismo de John Rambo e leva suas imagens ao limite ora do brutal, ora do humor involuntário, sem jamais se permitir concessões ou medo de soar ridículo, patético ou gratuito. Acima de qualquer juízo de valor, "Rambo IV" é um filme de coragem.
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
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