Vítima de uma Alucinação

SAKEBI. (Japão, 2006). De Kiyoshi Kurosawa. Com Kôji Yakusho, Manami Konishi, Riona Sazuki. Paris. formato de tela: 1.85:1. 104 min.



Vamos aos fatos. 1: Kiyoshi Kurosawa é um dos maiores diretores dos últimos vinte anos. 2: Vítima de uma Alucinação não está entre seus filmes mais marcantes. 3: pela primeira vez uma de suas obras é lançada comercialmente - seja nos cinemas ou em DVD - no Brasil.

Entre esses três fatos reside um dos maiores problemas que enfrentamos no ofício da crítica de cinema: a necessidade (que nem deveria existir) de legitimar, ou apontar, um autor sem que suas maiores obras estejam disponíveis a um grande público. Passamos os últimos anos clamando por filmes do genial diretor japonês, e quando um deles é lançado, lamentamos não ter sido a escolha ideal para justificar nosso entusiasmo. É hora, então, de examinarmos, ou melhor, refletirmos, sobre os porquês desse filme ter sido lançado antes de outras obras mais importantes do cineasta.

Não pretendo entrar no mérito financeiro. Acredito que este filme não seja mais barato que qualquer outro do diretor, mas se for, penso que não tenha sido esse o motivo, por uma razão bem simples. Existem em Vítima de uma Alucinação diversos códigos que já eram retrabalhados por Kiyoshi Kurosawa há muito tempo - imersão em mentes perturbadas, conflito entre real e imaginário, uso do som grave como cama para o mal que está prestes a se manifestar, exploração da persona fílmica de Kôji Yakusho (principal ator dos grandes filmes do diretor, e de Eureka, de Shinji Aoyama). Mas aqui esses códigos surgem com um didatismo imenso, uma subordinação a um ideário de comunicação com o espectador médio, esse ser invisível, imprevisível e sempre subestimado.

Em alguns momentos, as imagens delirantes de Kurosawa se confundem com as mais genéricas de um Takashi Shimizu ou um Hideo Nakata. Porém, ainda que se possa ressaltar qualidades nos dois cineastas citados, ambos empalidecem mesmo diante de um filme menor como este, principalmente porque Kiyoshi Kurosawa está mais interessado no que ele pode extrair de perturbador em cada imagem, antes de se preocupar em provocar uma atmosfera assustadora. Há sempre algo de inexplicável, de estranho e intrigante nos planos construídos pelo diretor, que não encontramos tão facilmente nos seus congêneres.

Esse didatismo por um lado traz algo de novo em sua carreira: a simplicidade. Tudo é muito claro, mastigado, de fácil digestão. Não é preciso esforço algum para entendermos o que está se passando, e nos concentrarmos em observar algo diferente, sobrenatural, nos enquadramentos e opções estéticas do diretor, sempre notáveis, mesmo quando econômicas. Por outro lado, deixa uma sensação de acomodação narrativa que era ausente em seus filmes obrigatórios: Cure, Charisma, Pulse e Guard From the Underground. A garota com cabelos esvoaçantes e vestido vermelho pode ser até filmada de uma maneira menos óbvia, e por isso mais estranha, por Kurosawa, mas ainda será uma garota de cabelos esvoaçantes e vestido vermelho, como tantas que vemos por aí.

Claro que há um grande diferencial, que faz com que o filme seja, sim, marcante, apesar de ter toda a pinta de acomodado. Há, sobretudo uma noção de fim dos tempos ausente na maior parte dos filmes de terror atuais, de ocaso de uma época em que os culpados não recebem punição (física, moral ou espiritual). O purgatório é aqui e agora, segundo Kurosawa, e isso o diferencia de todos os novos cultores do horror oriental. Existe uma instância maior que não permite a acomodação de uma culpa, mesmo que ela já esteja quase enterrada. Os fantasmas não surgem para dar sustos, mas para cutucar, reabrir feridas, remover curativos. Talvez seja por isso que o filme permaneça, ao contrário de outros que abusam de alguns dos mesmos códigos. Ao irrigar esses códigos ultrapassados de uma noção muito forte de mal do mundo, Kiyoshi Kurosawa permite que suas imagens continuem nos perseguindo, fazendo-nos parte desse imenso processo de culpabilização. Ficamos todos com as feridas da alma expostas, e isso não é nada agradável, mas é, claro, cinematograficamente necessário e salutar.

Sérgio Alpendre

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

 

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