Sangue Negro

THERE WILL BE BLOOD. (EUA, 2007). De Paul Thomas Anderson. Com Daniel Day-Lewis, Paul Dano. Buena Vista. Projeção: 2.35:1. 158min.


A narrativa épica funda um mundo; ela estabelece os marcos de qualquer experiência coletiva, histórica, narrativa. E é justamente lá que Sangue Negro começa: nos fundamentos, no fundo do poço negro de onde nosso herói, o feroz mineiro Daniel Plainview , vai "tirar" uma comunidade, investi-la de uma presença, definir seus limites e excluir todo e qualquer obstáculo à sua eclosão.

Sim, pois qualquer projeto heróico de demarcação de mundo passa por uma instância negativa, excludente, e não apenas afirmativa. Nosso Plainview não é apenas aquele que vai dar as cartas para a edificação de uma comunidade, ele deve se encarregar também de magnificar a sua existência pela metódica negação de tudo o que não se conforme ao seu ideal de controle.

E no meio do caminho, o que temos? uma criança, filho adotivo de Plainview, meio de contato e identificação providenciais entre este misantropo e o povo a quem odeia mas a quem deve comandar; um jovem pastor, figura inversamente proporcional ao protagonista, a face opaca e melíflua da vontade de potência; a mineral resistência da terra, este granulado planalto de sombra que a obstinação de Plainview ulcerará com os signos de sua megalomania.

Na primeira parte do filme, que é claramente estruturado neste sentido, os planos são deformados por uma onipresença gigante do protagonista; vemos o meio e os outros personagens através dos espaços que sua presença filtra. O jogo campo e contracampo também é revertido em prol do personagem: as palavras dos outros são delineadas quase sempre no rosto crispado de Day-Lewis, sua máscara expressionista escalona as inflexões dos corpos e palavras que transitam em torno daquela instância de força.

Anderson raramente corta, e quando o faz, é para nos oferecer diversos ângulos do personagem, e não para estabelecer uma relação democrática de confronto entre ele e seus interlocutores, se é que eles podem ser chamados assim; ele prefere demonstrar a ligação entre o protagonista e o meio através de uma imbricação modulada entre planos médios e planos gerais, a situação de uns nos outros como o horizonte de ação do líder e de sua audiência.

Aquele homem só se deixa apreender neste ricochete entre o conjunto de seus espectadores e sua figura idólatra; a fluidez da câmera e a duração dos planos indicam este processo de constituição da persona através da encenação, de uma dupla instância projetiva: os circunstantes se realizam através da identificação com o líder carismático, e em troca da integração comunitária abrem mão de sua força; o chefe, por sua vez, é um fantasma, nicho de projeções onde se coagulam as expectativas da comunidade.

Não existe propriamente como indivíduo, mas como personagem de uma construção imaginária e mítica. Só vamos nos defrontar com o homem na metade do filme, com a introdução do personagem do irmão.

Assim, o filme nos apresenta os tempos e os espaços necessários à criação de uma arena encantatória, onde as trocas e os confrontos passam pela mediação de uma figura única, pedra de toque da comunidade.

A presença de Daniel Plainview, nesta meia hora inicial, atravanca o espaço do plano e condensa o tempo. Por uma concentração quase geológica no personagem principal e pela formalidade associada a uma série de ritualizações que funcionam como marcos- a inauguração da igreja, a explosão do poço de petróleo- ,temos a impressão de um tempo que se redimensiona a partir de estratos muito pontuais, rígidos.

O tempo não flui, não descreve uma linha única e continuada; ele se retesa e fixa em posturas estatuárias, em cerimônias solenes, em coups de théatre. Compõe, nesta primeira parte do filme, uma divisão em atos dramática e precisamente delimitados.

Há cenas em que o manejo dramático tem claramente a intenção de ilustrar a vontade de potência do personagem, o processo de apropriação do espaço e do tempo da narrativa.

O encontro com o velho, pai do pastor, por exemplo, é precedido por uma lenta deambulação de Plainview pelo sítio, um andante stacatto que acumula a tensão e antecipa uma transformação decisiva no personagem do pastor, até então um jovem pacato. Este “passeio” introdutório é a linha harmônica que permite o acirramento do núcleo dramático.

A surra que Day-lewis dá no personagem de Paul Dano é um espetáculo modulado pela multiplicidade de pontos de vista adotados pela câmera, limiar de um combate agônico cuja função é assegurar o domínio do espaço de poder( real e mítico) por uma contundente distribuição dos centros de força.

Ou o grandiloqüente “crepúsculo dos deuses” sugerido na cena da explosão do poço de petróleo, quando as pulsões destrutivas do protagonistas são objetivadas numa diapasão operística; a atuação de Day-Lewis se expande numa série de posturas corporais e faciais que encenam um ritual de possessão demoníaca pela ganância.

O espetáculo que estas cerimônias descrevem é sombrio, e parte da força do filme vem de uma utilização de recursos dramáticos e expressivos herdados do cinema de horror. Em muitos momentos, o uso do poema sinfônico de Jonny Greenwood e a vastidão do Scope engolfam os personagens num caos tétrico pela associação suscitada com o teatro trágico, onde o indivíduo não passa da marionete de forças que o ultrapassam. Logo no início do filme, ao sair ferido de dentro do poço, Daniel Day-lewis se arrasta como um verme; a câmera, indiferente à dor do homem, dá uma pan para a esquerda e enquadra as montanhas ao longe.

A partir do encontro com o falso irmão, o filme se concentra na subjetividade do personagem, e agora temos o avesso do épico, ou o preço a se pagar por ele. No demonstrativo credo de misantropia de Plainview ao irmão, temos uma estratégia até certo ponto simplista de estabelecer um ponto de fuga do épico e da representação proposta na primeira parte.

O plano agora constitui um espaço mais rarefeito, a ordem das seqüências é determinada segundo a necessidade de exposição de leitmotifs pulsionais, emocionais e não, como no início do filme, da construção de uma narrativa ascendente e linear. Daniel deixa de ser a consciência que narra, que é centralizada no plano e na tessitura da narrativa, para se tornar personagem numa rede de conexões mais amplas e disléxicas.

De caçador a caça: Anderson constrói um mapa sintomatológico dos efeitos perversos do capital na consciência do personagem encarregado de representá-lo.

O filme sofre claramente uma fratura de tom, proposital certamente, mas que deixa marcas numa montagem que abandona o ritmo de valsa cadenciada em nome de um estilhaçamento da durée em notações menos lineares de atmosfera e ritmo.

É como se esta segunda parte, um tanto inorganicamente composta – compósita-, se encarregasse de ser um comentário sobre a primeira; como se a sondagem psicológica, introduzida pela relação com o irmão, constituísse um reordenamento do foco.

A primeira parte é uma epopéia, Daniel Plainview um herói- bem, pelo menos um herói americano- , mesmo que desconfiemos desde o princípio dos seus métodos e intenções; a segunda parte é um painel de ações e reações estruturado sob o signo da paranóia, abordado segundo um esquema de investigação psicopatológica, behavorista. Perde-se em ambigüidade e amplitude de foco, ganha-se no descentramento do personagem principal e em truculência.

Embora a interpretação de Day-Lewis sugira muito freqüentemente a esquizofrenia- e não vai aqui nenhum comentário irônico, ao menos não tão irônico assim-, é a paranóia do personagem principal, origem até então latente da vontade de potência “épica”, o princípio que norteia a segunda parte do filme.

Concomitante a esta modificação na abordagem do personagem, uma derrocada do épico; o melodrama e a farsa invadem o filme. Uma supervalorização do décor e a interpretação demonstrativa, pesadona mesmo de Day Lewis preparam o enterro do gênero do qual Sangue Negro parte- seu antecedente arquetípico é Giants , de George Stevens- e para o qual elabora uma perversão subliminar. Os tempos solenes, o enquadramento típico de um personagem que se situa no plano geral de uma comunidade reunida, a harmonia dos negros opacos e da luz desvairada que equilibrara o filme até então, entram em colapso.

Aqui temos a velha máxima marxista da História que volta como farsa: o encontro solene na igreja se converte numa cerimônia histérica de ressentimento e vingança, no batismo do pastor; a exposição do filho como baluarte de respeitabilidade vira um brinde desajeitado à ruína, no bar; o dueto caricatural do final. Anderson flerta com a alegoria, mas basicamente como um modo de representação que se relaciona criticamente com a primeira metade.

O protagonista sai do centro da cena; ele deixa de ser o princípio ordenador daquele mundo (e daquela história) para se tornar um fantoche entre tantos daquele jogo de máscaras- psicopatológicas, imaginárias, culturais- onde o herói e o predador não se distinguem, onde a epopéia acaba em farsa e a farsa talvez seja a forma mais adequada para se falar certas verdades.

O duelo final é menos um acerto de contas “moralista” que Anderson quer estabelecer entre o protagonista e sua trajetória que o confronto de duas táticas de encenação, encarnadas não apenas nos personagens – o pastor e o empreendedor, dois lados da mesma moeda- mas igualmente na estrutura do filme: o épico e o patético; ou o patético como o horizonte do épico. Ao final de sua trajetória, duas máquinas de poder e de guerra chafurdam no terreno do improvável e do grotesco.

Se Anderson investe numa solução que, a meu ver, é até certo ponto insatisfatória- o détour pela narrativa subjetiva, psicológica como modo de dialetizar e desmistificar a grande narrativa- ele não deixa de instigar nossa percepção com uma espécie bem ambígua de análise sobre o mito do herói, sua natureza projetiva e performática e o fragoroso ocaso dos modelos de representação que o sustentam.

Luiz Soares Júnior

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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