Cinema - Cultura - Comportamento
(Mute - Importado)
Para uma dupla que começou impressionando pelo tom sorumbático de suas descidas aos cabarets da tristeza e da boemia, com um primeiro disco sensacional chamado Felt Mountain (2000), cuja faixa de trabalho, a incrível "Lonely Head", era marcada pelo som inconfundível de um theremin , o Goldfrapp até que deu suas saidinhas e andou freqüentando as pistas de dança mais sofisticadas da Europa, com dois discos bem agradáveis, ainda que sem o impacto da estréia, Black Cherry (2003) e Supernature (2005). Agora eles parecem dispostos a dar um tempo na festa, e voltaram com Seventh Tree , uma coleção de canções bem mais calmas, num outro patamar que o do disco de estréia, por estar mais aberto a outras sonoridades, outros tons.
Já na faixa de abertura, "Clowns", de uma delicadeza indescritível, fica patente o desejo de externar um lado mais suave e melancólico novamente. Violões e violinos duelam harmoniosamente com a voz de Alison Goldfrapp, na que é uma das melhores canções deste início de 2008. A faixa seguinte retoma o clima de Felt Mountain : Little Bird, com sua melodia à Beatles e seus efeitos eletrônicos psicodélicos são um bom contraste à calmaria de "Clowns". Não que seja uma faixa mais nervosa, mas que explora um outro lado da doçura, uma face menos identificável de melancolia (a palavra não está aqui à toa, já que as melhores melodias geralmente são melancólicas). "Happiness" aprofunda a ligação com os anos 60, lembrando coisas como The Left Banke. Para isso contribui bastante a batida característica do pop com tintas flower power que era feito em 1968. Outra belíssima faixa, que já nos faz pensar que o disco é realmente grande.
A pausa para respirar finalmente vem com "Road to Somewhere", que é "só" uma bela balada. O retorno à inspiração vem rapidamente com "Eat Yourself", que é um pouco do que se esperava da dupla com a notícia de que eles tinham se suavizado novamente, mas tem um final simplesmente irresistível em sua densidade. "Some People", que eu tive que confirmar que não era do Paul McCartney, tamanha a semelhança com as melodias do ex-beatle, prossegue em alto nível. "A&E" lembra, vejam só, algumas coisas que George Harrison fez no miolo dos anos 70 (o disco 33 1/3 talvez seja a melhor referência). A classuda ao extremo "Cologne Cerrone Houdini" vem em seguida, provando que a dupla ainda está com a prosa toda. Canção rebuscada e pretensiosa, com uma daquelas melodias que te fazem refém, te jogam para todos os lugares. É o arrebatamento irrefreável. A essa altura, na primeira audição, já tinha me rendido ao que agora me parece óbvio: Seventh Tree é a obra-prima do Goldfrapp. Se a impressão anterior era a de que eles nunca deviam ter deixado o clima de Felt Mountain de lado, agora é a de que os discos dançantes do meio foram necessários para esse nível de amadurecimento.
Nem preciso dizer que as duas faixas que encerram o disco não deixam a peteca cair. "Caravan Girl" é a mais animada de todas, com sua pegada guitar-band. E "Monster Love" é o final certeiro para um disco surpreendente e não tão óbvio quanto se esperava. A faixa é um belo exemplo do que foi todo o disco: arrebata quando pensamos que vai ser burocrata, emociona quando achamos estar diante de uma canção friamente calculada para soar inteligente e moderna, empolga quando não mais esperamos algo distante da abertura bucólica de "Clowns". A esta altura, constatamos que todo um universo musical passeou pelo disco, e o fato de só nos darmos conta disso no final diz muito sobre a habilidade na hora de seqüenciar as músicas. Começamos tristes, passamos pela alegria contagiante, terminamos extasiados.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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