O desafio é lançado. Os fatos contam que Mick Jagger não gostou muito do rigor de Scorsese. Também contam que Keith Richards é um grande fã do diretor, e por isso insistiu para que fosse ele a fazer o registro. Mick, bufando, resolve, então, complicar a vida do baixinho das sobrancelhas grossas. A começar pela demora para entregar o set list, que só foi definido "a uma hora do show" (vemos Jagger dar uma risada maquiavélica enquanto diz isso). Scorsese: "é só rock 'n' rolll, o negócio é não esquentar a cabeça". São dois shows da turnê de A Bigger Bang, um dos discos mais roqueiros e furiosos da história da banda. O melhor, sem dúvida, desde Tattoo You, de 1981.
First song.
Corte brusco como um riff de guitarra. Começa com "Jumping Jack Flash", clássico absoluto em uma de suas melhores versões ao vivo. "Shattered", do álbum Some Girls (1978), vem em seguida. O que vemos na tela? Tudo que se passa em cima do palco e nos arredores. Scorsese topou o desafio, e se armou até os dentes com várias câmeras e diversos profissionais experientes comandados pelo chapa Robert Richardson (que já havia embarcado em um outro tipo de rock scorseseano em Vivendo no Limite) . Assim, cada suspiro de Charlie Watts, cada careta de Ronnie Wood (que antes era simplesmente Ron Wood), cada rebolada de Mick Jagger e cada tragada de cigarro de Keith Richards chega a nós com o melhor enquadramento possível.
Quem conhece o eficiente The Last Waltz, que documenta o show de despedida da banda de Robbie Robertson que acompanhava Bob Dylan, chamada The Band, sabe que Scorsese faz muito bem o feijão com arroz. Tido como uma lição de como se documenta um show de rock, The Last Waltz empalidece perto deste Shine a Light. Basicamente porque The Band é um grupo mais estático no palco, deixando o desafio quase que exclusivamente para a entrada dos convidados.
Em Shine a Light também temos convidados - Jack White, Buddy Guy, Christina Aguilera. E o desafio ainda é maior, porque a cada entrada vemos a reação de um Stone, um olhar trocado entre Richards e Wood, ou entre Richards e Jagger. Ou entre um deles e o convidado. Olhares são flagrados pelas câmeras espertas que Scorsese tão bem posicionou em torno do palco. Uma delas até incomoda Charlie Watts, mas ele é uma espécie de brincalhão, que abusa de uma postura calculadamente blasé. Jagger dá suas risadinhas, sabendo que o operador tem que suar muito para acompanhá-lo. A câmera capta os movimentos, e as risadinhas. Não vemos apenas um show, dos mais inspirados que a banda já fez. Vemos uma vida que se desenvolve nos palcos, como há mais de 40 anos. Vemos uma banda se entregar por completo, como se todos eles estivessem com o demo. São sexagenários pulando e correndo como se tivessem 20 e poucos.
Scorsese intercala momentos das apresentações no Beacon Theatre a entrevistas antigas com membros da banda. Em uma delas Keith Richards diz que no palco ele nem pensa, só sente. Em outra, de 1972, Mick Jagger é perguntado se conseguia se imaginar fazendo toda essa ginástica dos shows aos 60 anos. Ele diz: facilmente.
Jagger, Scorsese, dois desafiadores. Dois jogadores que não sabem perder. Tinha que dar empate. Com Richards zombando de tudo, Wood vibrando com cada lance, e Watts olhando o relógio para ver quando acaba. Não é sempre que podemos ver um derby desses de camarote.
Sérgio Alpendre