Cinema - Cultura - Comportamento
(EUA, 2008). De Andy e Larry Wachowski. Com Emile Hirsch, John Goodman, Christina Ricci, Susan Sarandon, Matthew Fox. Warner. Projeção: 2:35.1. 129 min.
Com Speed Racer, os irmãos Wachowski acrescentam mais um exemplar à recente série de filmes que tentam partir da síntaxe do blockbuster contemporâneo - narrativa rudimentar que dá espaço a correntes sensoriais, animação impressionista, direção de arte agressiva, etc. – para construir uma espécie de filme experimental de alto orçamento bastante particular (pensemos em As Panteras Detonando, do McG, ou Van Helsing, de Stephen Sommers). Pode-se dizer que se trata de avant garde mainstream . São filmes muito diferentes entre si, mas que tem em comum uma curiosa ponte estética, são tantos filmes bastante regressivos em certas posturas por vezes se aproximando muito de um cinema de atrações pré-Griffith, quanto bastante modernos em muito das suas preposições. Lembretes vivos e incômodos de que a idéia da evolução de arte é uma grande besteira. São também filmes que de certa forma retomam certos preceitos dos filmes que Francis Ford Coppola realizou na Zoetrope, mas atualizados para uma sensibilidade visual e de leitura de informações contemporâneas.
Se nos filmes anteriores dos Wachowski sempre foi visível uma atração pelo artifício, esta é elevada ao quase cartoon neste Speed Racer . É nesta atração muito mais do que na surrada mensagem anti-corparativa que como sempre bate ponto nos filmes dos irmãos (que não deixa de ser muito engraçada numa super produção da Warner Bros.) que Speed Racer encontra tanto o que tem de pessoal como toda sua força. Curioso paradoxo: quanto mais os irmãos se afundam dentro deste projeto industrial e de alto orçamento, mais particular seu cinema se revela.
Trata-se de um filme infantil com claros pontos de contato com a série Pequenos Espiões de Robert Rodriguez. Isto dito, é válido apontar que os Wachowski se aproximam muito mais de romper a barreira entre filme infantil e filme infantilizado que Rodriguez, mas por outro lado este Speed Racer tem um elemento exploratório ausente nos filmes do Rodriguez, por vezes sugerindo uma síntese do imaginário de um garoto de dez anos que passa a maior parte do tempo jogando videogame e vendo animes. O filme mesnmo se apresenta como uma espécie de anime live action para este público. Os cineastas se instalam dentro desta proposta e retiram do universo que constroem tudo que podem.
Se algo torna Speed Racer um filme especial, é justamente a entrega dos cineastas para com este projeto. A maneira como o filme se deixa levar dentro de uma idéia de cinema para bem além do limite que muitos considerariam aceitável. Por vezes, nas sequências de corridas, o filme abandona o cinema figurativo e desemboca na pura abstração; o cinema de sensações levado a tal limite que quase observamos meros borrões coloridos. Todo o uso agressivo de cores merece um elogio à parte, extremamente funcional dentro da proposta do filme, mas completamente despreocupado em ser agradável aos olhos. Talvez seja útil comparar este filme com o Homem de Ferro de Jon Favreau, ambos são filmes muito bem resolvidos dentro das suas propostas, mas há um abismo entre elas. Enquanto o filme de Favreau parte de uma proposta bastante convencional seja na construção narrativa, seja de personagens ou mesmo de cenas de ação, os Wachowski tiram o melhor proveito possível das liberdades que os esquemas narrativos dos blockbusters recentes permitem; basta comparar o uso bastante eficiente que ambos os filmes fazem de seus elencos, em Homem de Ferro é uma questão de fazer uso do charme dele de uma maneira quase à velha Hollywood, enquanto em Speed Racer é uma questão de usá-lo como âncora enquanto os efeitos e os cenários tomam conta do espetáculo. O que diferencia Speed Racer é, por fim, que os Wachowski tem um projeto de cinema.
Filipe Furtado
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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