Sr. Vingança

SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE. (Hong Kong, 2002). De Park Chan-wook. Com Song Kang-ho, Shin Ha-kyun. California. Projeção: 2..35:1. 129min.



O espectador que tenha Oldboy como referência maior do sul-coreano Park Chan-wook tem grandes chances de levar um choque ao ter contato com este Senhor Vingança (dita primeira parte de uma trilogia do diretor cuja temática é justamente a vingança). O filme se articula de forma bem mais seca e direta, com um trabalho de construção de planos e mise en scène de bastante rigor e formalismo. Por conta disso, o filme, por diversas vezes, aparenta ser controlado e gelado demais, o que, por outro lado, permite que esta frieza tenha potencial de ajudar o público a embarcar na pequena jornada de violência e inconseqüência proposta por Chan-wook.

Sobressai-se em Senhor Vingança a idéia de que nada é exatamente o que parece ser. Não num sentido de joguinhos de roteiro que irão desembocar num “final-surpresa”. Falamos aqui de uma certa trapaça dentro da diegese. O espectador está sempre mais ciente de cada acontecimento do que os personagens. Em simples movimentos de câmera e de montagem, o diretor renova várias situações – como a mulher sofrendo de dor e gemendo, o que, para os vizinhos, parecem ser gritos de prazer; a foto da garotinha chorando porque quer um colar, enquanto, para o pai dela, a imagem remete a um sofrimento físico decorrente de seqüestro; a calmaria e alívio do protagonista ao chegar em casa com uma mala de dinheiro, enquanto logo saberemos que sua irmã está agonizando no banheiro. Para boa parte das cenas, há outras antagônicas que complementarão o universo do filme de maneira inversa.

Daí vem a maior parte do interesse em Senhor Vingança : menos na violência explícita e nos choques dos desdobramentos do enredo do que na encenação que prioriza as reconfigurações de imagens realizada por Chan-wook. O cineasta ainda faz aqui seu filme mais assumidamente “social”, no sentido de pôr em cena um conflito entre classes – algo que a câmera explicita ao mostrar, primeiro, o enterro da irmã doente, colocada embaixo de pedras à beira de um lago; e, em seguida, o velório da filha do empresário, cremada numa cerimônia de alto luxo. Nem na morte os homens são todos iguais, parece gritar Park Chan-wook.

Marcelo Miranda

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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