Cinema - Cultura - Comportamento
Kurutta Ippêji, Teinosuke Kinugasa, Japão, 1926.
Na turma de cineastas clássicos do cinema japonês, que contém figuras essenciais do cinema como Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu, Mikio Naruse e Akira Kurosawa, não há lugar para Teinosuke Kinugasa. Mas deveria haver. Nascido em 1896, Kinugasa iniciou sua carreira como ator, ainda criança, partindo depois para papéis femininos em filmes de Tadashi Ocuchi e Eiso Tanaka, antes de fazer filmes geniais como O Portal do Inferno (1954), premiado em Cannes e adorado por Jean Cocteau, e Os 47 Ronin (1932), que depois receberia outra versão de mestre assinada por Mizoguchi.
Uma Página de Loucuras mostra em imagens alucinadas a vida dentro de um manicômio, com uma câmera que se move com muita rapidez - e que depois veríamos em Limite, de Mário Peixoto, cuja cena da mulher acorrentada na abertura pode ser uma citação ao filme de Kinugasa. Um homem (Masuo Inoue) aceita um emprego lá dentro com a esperança de tirar sua mulher, internada como louca após tentar matar seu bebê e se suicidar.
Seu desespero é tocante, sua expressão sofrida ao ver a mulher encarcerada só tem paralelo com a de Takashi Shimura desiludido em Viver (1952), de Akira Kurosawa. Mas talvez o que de mais exasperador exista no filme é a maneira como ele se deixa contaminar, nos cortes, movimentos de câmera e enquadramentos, pela loucura geral do lugar.
Em uma cena paradigmática, a mulher anda num jardim cheio de arbustos, o olhar perdido de quem não tem mais conexão com o mundo, enquanto outras mulheres flanam ao lado dela como fantasmas. Elas estão esfumaçadas por um filtro que confere uma atmosfera de sonho à cena.
O filme todo é frenético, doente, cheio de pesquisas visuais que antecipam as despirocadas feitas na Nouvelle Vague por feras como Seijun Suzuki e Nagisa Oshima. Tudo condensado em 60 minutos.
Uma Página de Loucuras teve um relançamento em 1973, quando foi adicionada uma música experimental que aprofunda o tom aflitivo do filme.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Jr., Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier
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