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(Mercury/Island)
O anúncio de que o Portishead lançaria seu terceiro álbum este ano, depois de quase uma década desde o último trabalho de estúdio, o homônimo Portishead , uma interrogação surgiu imediatamente: o trip-hop não tinha morrido? Se sim, o que seria agora a sonoridade do Portishead
sem suas batidas tão características? A banda fez parte de uma importante cena inglesa, surgida nos anos 90. O grupo de artistas que, além do Portishead, incluia Massive Atack e Tricky, incorporou o jazz e o acid house, aderindo a essas influências as batidas eletrônicas que foram responsáveis por dar à década passada um tom mais introspectivo. Porém, não se pode negar que a carga sombria do Portishead deu ao trip-hop formas muito peculiares e que, por mais que Tricky e o Massive Atack tenham álbuns anteriores a Dummy , primeiro trabalho da banda de Beth Gibbons, lançado em 1994, o primeiro nome que nos vem à cabeça ao pensarmos nesse estilo musical é inevitavelmente Portishead.
Durante esse tempo em que o grupo inglês ficou recolhido, Beth Gibbons lançou seu disco solo, o bom Out of Season , em 2002. Houve ainda uma participação do grupo num álbum-tributo a Serge Gainsbourg lançado na Inglaterra em 2006. Mas, a parte dessas pequenas pistas (se é que essas podem ser consideradas mesmo pistas), pouco poderíamos saber sobre o novo álbum do Portishead depois de dez anos.
Pois, a grande surpresa de Third é que ele mantém-se fiel ao espírito dos dois primeiros álbuns da banda. Embora, os dez anos que o precederam estejam ali, como uma sombra de alguma forma impregnada em suas belas cancões.
O álbum começa acertadamente com “Silence”, talvez a faixa mais sugestiva do disco. “Esteja alerta para a regra dos três: o que você dá, retornará para você; essa lição, você tem que aprender, você só ganha o que você merece”. Estranhamente, é com essa vaga citação em português que a música (ou o álbum, se preferirmos) se inicia. E lá se vão mais de dois minutos de som instrumental até que a voz de Beth Gibbons possa finalmente ser ouvida. Sua entonação soa quase como um lamento. Não só nessa, mas em outras canções deste disco também, ela canta como se conversasse com outra pessoa (há quase sempre um interlocutor “you” nas letras). Conta sobre seus receios, sobre seus anseios, sobre sua tristeza, inseguranças. Third tem um tom confessional despretencioso e uma doçura que talvez só possam ser encontradas na voz de Beth Gibbons, na delicadeza das letras e das batidas das canções do Portishead. Tanto que esse é um daqueles raros discos que, quanto mais você ouve, mais se torna impossível escolher sua canção favorita.
Bom, mas o que ficou do trip-hop no novo álbum do Portishead? Bom, eles não abdicaram das batidas eletrônicas. Elas estão lá - e não poderia ser diferente em se tratando de Portishead. O uso de sintetisadores é mais contido. Em Dummy e Portishead , para quem não se lembra, os sintetisadores eram usados inclusive para distorcer a voz de Beth Gibbons. Em canções como “Plastic”, de Third , as batidas sintetizadas estão lá e o trip-hop ainda se faz sentir ao longe, embora esteja colocado de forma muito mais “suave”. Por outro lado, enquanto canções como “The Rip” e “Deep Water” são quase acústicas, outras como “Machine Gun” ou “Carry on” têm batidas de percursão tão pesadas que lembram inevitavelmente o último disco de Björk. Tal diversidade poderia fazer o disco soar um pouco disperso e incoerente. Mas não nesse caso. A voz de Gibbons, as melodias que nos fazem nos sentir tão próximos das canções não deixam que isso aconteça e, pelo contrário, conferem uma extrema coerência a esse trabalho.
“I can't deny what I've become/ I'm just emotionally undone/ I can't deny, I can't be someone else (…)”. Com versos como esse, da música “Magic Doors”, no geral, podemos dizer que o Portishead saiu irretocável dos anos 90.
Liciane Mamede
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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