A Juventude na pauta do dia
A 11ª Mostra de Tiradentes foi uma lição de curadoria. Mas o sinal de alerta deve estar aceso.



Por Sérgio Alpendre

Escrever sobre uma Mostra que se encerrou há mais de 40 dias tem suas vantagens. A maior delas é, sem dúvida, a distância, que permite uma frieza maior, e uma apreensão de conjunto, relativizando ou dialogando com outras diferentes abordagens. Mas também tem suas visíveis desvantagens. Uma coisa é certa: o texto mais crítico e questionador que eu pensava em escrever se tornaria (como este aqui talvez tenha se tornado) apenas um complemento a este aqui, de autoria de Francis Vogner dos Reis, também redator da Paisà , para a Cinética . Como Francis, também acho fundamental "um olhar crítico, menos no sentido da análise fílmica propriamente dita, e mais na atitude de se conseguir ver esse novo panorama e seus filmes a partir também de suas deficiências e fragilidades." Como houve renovação de crítica e realizadores, não convém a esta geração que está se tornando mais e mais evidente entrar num clima de oba-oba, de dominação de um mundo, sem antes um questionamento de suas incoerências de discurso e de projeto estético.

Não queremos ser o novo status quo (digo nós, porque me incluo nesse grupo de críticos e realizadores que tiveram voz na Mostra), não podemos agir como se Tiradentes fosse um marco histórico em todos os sentidos, um oásis de qualidade em meio a festivais cada vez mais ultrapassados. Mesmo que tenha assim nos parecido, num primeiro momento. Sempre lembrando que essa postura de oba-oba veio de nós, críticos presentes na 11ª edição do evento, mas também dos realizadores presentes nos debates. Coube a nós um primeiro momento de euforia nociva, que desencadeou algumas reações descabidas, manifestadas nas premiações, nos debates e em nossos textos, e também uma boa dose de declaração de princípios, do tipo "top of the world, ma". Natural que venha de nós, de mim, do Francis, uma mea culpa, ou simplesmente uma análise mais fria e comedida das coisas. É bem provável que Tiradentes seja, hoje, o melhor e mais representativo dos festivais no que diz respeito à profusão de idéias e reflexões sobre nosso cinema. Mas não é a perfeição absoluta, e nosso trabalho será muito mais útil, para a melhoria do evento e para a sobrevivência de uma crítica ainda tateante e com voz limitada, se questionarmos o que nos parece exagero ou equívoco interpretativo.

Muitos estreantes deram as caras em Tiradentes, mas o melhor cinema visto por lá, salvo exceções (a maior parte nos curtas), foi assinado por diretores veteranos como Carlos Reichenbach, Guilherme de Almeida Prado e Júlio Bressane, ou de diretores que já alcançaram uma posição que suscite o acompanhamento mais de perto de seus filmes, como é o caso de José Eduardo Belmonte. Seria isso um tiro pela culatra da curadoria? De forma alguma. A intenção sempre me pareceu ser a de jogar luz para mostrar pontos fortes ou fracos, radiografar tendências ou apontar problemas em comum; agrupar um número de primeiros filmes para ver o que eles tinham a dizer, em conjunto ou isoladamente, em conformidade ou desencanto com o estado atual de nosso cinema. Por mais óbvia que possa parecer a conclusão de que essa proposta iria produzir alguma análise, por mais sem esperança que fosse, não há como ignorar que o agrupamento desses filmes nos propiciou alguns bons dias de exercício crítico e de salutar cinefilia. Por mais que as estréias estejam quase todas numa faixa que vai do desinteresse diplomático a um entusiasmo tímido, foi agradável ver como elas se comunicam umas com as outras, como buscam caminhos que se cruzam em determinados momentos, se tornam paralelos em outros, e se afastam radicalmente quando menos esperamos.

A mostra paralela chamada Aurora foi formada apenas com primeiros longas, que concorriam por dois prêmios: um concedido por um júri da crítica, outro por um júri jovem, alunos de uma oficina ministrada em Belo Horizonte por Cléber Eduardo. Natural que as atenções fossem voltadas para esses filmes, mas só um deles tem cacife para brilhar: O Grão , de Petrus Cariry. Os outros são, no máximo, expressões de alguém que quer encontrar um caminho. Da irregular emulação do cinema marginal de Meu Nome é Dindi , de Bruno Safadi, à pseudo-radicalização - talentosa, certamente, mas ainda assim pseudo - de Sábado à Noite , de Ivo Lopes Araújo, o que mais vimos na Aurora foi a vontade de ser autor. Autor a qualquer custo, seja também na brincadeira cansativa do plano-seqüência de Ainda Orangotangos - que é fetichista sim, mas e daí? (fetiche não é um mal a priori); seja nos tempos estranhos de Corpo , de Rubens Rewald e Rossana Foglia. Seja na inconseqüência criativa de Amigos de Risco , ou na decepcionante limitação de Crítico - uma radiografia, intencional ou não, de que o mundo da reflexão está doente. Ou seja, sobrou pertinência na idéia, mas faltou filmes. O Grão está muito acima dos outros, mas paradoxalmente não traz consigo a marca de uma juventude. É cinema de velho, ciente de algumas normas dramatúrgicas do cinema dos mestres do passado. É muito bem filmado, bem interpretado, com fotografia espetacular - do mesmo Ivo Lopes Araújo de Sábado à Noite . É quase neo classissismo. Um peixe fora d'água dentro da mostra Aurora.

E aí fica a pergunta: que juventude é essa que, mesmo quando acerta, precisa emular, com maior ou menor habilidade, um cinema já feito há muito tempo - no caso de Dindi , Sganzerla, no de O Grão , Mizoguchi. Se tudo já foi feito, para quê chamar a atenção para uma juventude? O que ela traz de novo, ou de sopro inventivo, ou mesmo de retomada de uma dramaturgia clássica que parece varrida para debaixo do tapete? Talvez O Grão, do jovem velho Petrus , seja tão bom justamente por saber respeitar a história do cinema, o poder de uma dramaturgia, a sensatez de voltar aos que fizeram bem e melhor. O grande problema de Meu Nome é Dindi , nesse sentido, é se apropriar de uma linguagem antes mesmo que se tenha consciência de como ela era. É como transformar Sem Essa Aranha numa cartilha, reduzindo seu potencial iconoclasta a uma lição para futuros cineastas. Não dá pé. Safadi não atentou para o óbvio. Sganzerla não era domesticado. Não queria ser domesticado. Seu cinema era de embate, de fúria destrutiva. Safadi me pareceu muito gente boa para ser kamikaze. Fantasiar o demônio de santo é bobeira. Não é esse o caminho para o cinema. Qual é? Sinceramente, não sei. Mas fica claro que não é esse. Porque se Meu Nome é Dindi for esse filmaço que pintaram em Tiradentes - ao menos a maioria da crítica que lá esteve -, o que dizer de Sem Essa Aranha , ou mesmo Copacabana Mon Amour , filme que não me atrai tanto, mas que é claramente outra coisa? Para o emulador ser tão bom quanto o emulado é necessária uma capacidade de se entregar que poucos diretores no mundo são capazes de ter.

Então ficamos assim: uma idéia excelente (jogar luz num novo cinema que está aparecendo), sabotada, apenas parcialmente, pelos filmes escolhidos. Teria como ser melhor? Provavelmente não. Seria uma idéia não tão válida assim? Pelo contrário. Serviu como um importante diagnóstico - palavra muito usada por lá - de que tem algo errado mesmo com esse oba-oba que se tornou o novo cinema brasileiro. Mas pouca gente vai reconhecer isso, não é? Paciência.

Veteranos, ou nem tanto, brilharam mais fora da mostra Aurora. Foi o caso de Carlos Reichenbach, e seu Falsa Loura . É a coroação definitiva da atriz Rosanne Mulholland. Mais do que isso, uma ode ao simplório, ao puramente sentimental - a música brega entrando como uma válvula de escape a quem deve batalhar dia após dia por uma vida melhor. A incompreensão de quem tem muito amor para dar, mas recebe muito pouco. Rosanne brilha como a protagonista que é confundida com uma vagabunda, tudo porque seu corpo, sua pele, exalam amor incondicional. O sonho de ser amada pelos ídolos se transforma em lição. Ao final do filme, ela certamente está muito mais forte, embora ainda não esteja ciente disso. Reichenbach fez mais um filme de ressurgimento feminino, de domínio da fragilidade e da beleza. Fragilidade que sabe se transformar em trunfo, bem dito. Beleza que carrega consigo a chance de fazer o bem e o mal. Falsa Loura é mais um capítulo do diretor na busca da alma feminina.

Júlio Bressane apresentou - infelizmente não de corpo, só de alma - o seu Cleópatra , premiado e vaiado em Brasília. Odiado e adorado em Tiradentes. O que me espantou foi que a polaridade desta vez não se justificava tanto, já que o filme é um dos mais comportados do diretor. Com seu humor abobado, com um senso de espaço que não tem igual no cinema brasileiro atual, e, principalmente, com uma erudição que não teme o afastamento do público (mesmo sendo o filme menos erudito de Bressane - uma erudição bem palatável, apesar da ausência de freios), Cleópatra encantou a maior parte da crítica presente na Mostra, e provocou risadas debochadas na platéia. Uma reação que Bressane adoraria presenciar. Não é de seus filmes mais memoráveis, mas perto da maioria dos filmes da Aurora, é irreverente e ultra-moderno. Conjuga classicismo e ruptura com a naturalidade de quem sabe o que, e em que época, está filmando. Uma lição de postura, acima de tudo.

Meu Mundo em Perigo foi a outra grande obra exibida em Tiradentes. O terceiro filme de José Eduardo Belmonte mostra uma alma dilacerada à procura de um fim. A estrada que o personagem de Eucir de Souza percorre é uma estrada reta, rumo à finitude. Encontramos o personagem em um redemoinho do qual ele quer sair a qualquer custo, e esse custo tem tudo para ser alto. Esse sim, o verdadeiro kamikaze. Belmonte não quer apenas se associar à moda da câmera tremida que segue os personagens como no cinema dos irmãos Dardenne. Ele quer entender seu personagem, dar uma chance a ele. Essa procura tem o sabor da leviandade, porque somos levados a reboque dos atores, ficamos à mercê de suas ações. É um preço a pagar pela opção estética. E Belmonte é dos poucos diretores brasileiros que sabe fazer com que esse pagamento valha alguma coisa.

Outros longas de interesse apareceram. É o caso de A Via Láctea , com sua simpática visão da cidade de São Paulo, e, especialmente, da Livraria Francesa - palco de um memorável esconde-esconde; de Nome Próprio , com o tour-de-force impressionante de Leandra Leal sendo muito mais do que o filme parece querer ser; de Alucinados , e seu trabalho com a frustração das expectativas do espectador; do ressurgimento de Guilherme de Almeida Prado e seu enigmático e pessoal Onde Andará Dulce Veiga? Também tivemos algumas experiências equivocadas da turma de Minas, mostrando que o Estado também dá suas mancadas: 5 Frações de uma Quase História é patético, enquanto Ô, de Casa pouco faz para sair do estigma de documentário sobre a pobreza rural que nada acrescenta. Desta vez o estado não brilhou como no ano passado (em Tiradentes e Ouro Preto). Tivemos ainda Deserto Feliz , o mediano exercício de estilo de Paulo Caldas, e os ainda não vistos PQD e Otávio e as Letras .

Nos curtas pudemos ver desde a originalidade e o rigor do belo Antonio Pode até o exercício constrangedor de Sistema Interno e Décimo Segundo . Da aventura interna e lynchiana de Saindo de Casa à desbragada homenagem à fauna noturna de A Psicose de Valter . Do singelo retrato de uma relação em Café com Leite à tocante poesia de Corpo Presente: Beatriz . Noves fora, pelo número maior de acertos em relação aos erros, talvez ainda esteja nos curtas a verdadeira renovação do cinema brasileiro. Renovação que corre o risco de nunca acontecer de fato, por estar sempre presa ao exercício do curta-metragem, seja pela formação e identificação de linguagens, seja na impossibilidade de alcançar uma dimensão realmente cinematográfica durante mais de meia hora.

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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