Diretores americanos expatriados na Europa

Seleção de Sérgio Alpendre
Textos de Filipe Furtado e Sérgio Alpendre


Orson Welles

O novo longa de Woody Allen, diretor americano por excelência - "mais que americano, novaiorquino" - inspirou este TOPS um pouco diferente: grandes filmes realizados por diretores americanos (ou que tenham construído carreira sólida nos EUA) em outros países. Vale desde Joseph Losey, que no início de sua carreira no cinema - ele era do teatro experimental - entrou para a lista negra e se exilou na Inglaterra, até Billy Wilder e Otto Preminger, que vieram para a América fugindo do nazismo, para mais tarde voltar e realizar alguns de seus filmes derradeiros. Expatriados por conta própria ou contra a própria vontade. Tanto faz. São diretores americanos, por nascença ou adoção. (SA)

Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, 1951), de Albert Lewin

Americano de Nova York, Lewin realizou três belos longas nos EUA, todos protagonizados por George Sanders: Um Gosto e Seis Vinténs (The Moon and Sixpence, 1942), O Retrato de Dorian Gray (The Portrait of Dorian Gray, 1945) e O Homem Sem Coração (The Private Affairs of Bel Ami, 1947). Em 1951, filmou na Inglaterra e na Espanha esta que muitos consideram sua obra-prima, com Ava Gardner e James Mason nos papeís principais do título original. Os Amores de Pandora é uma festa de luzes e cores que comprovavam o talento sem igual de Lewin. (SA)

 

Guerra e Paz (War and Peace, 1956), de King Vidor

A opulência da produção pode até ocultar parte das habilidades de King Vidor ( Duelo ao Sol, Homem Sem Rumo) como diretor, mas não consegue esconder que se trata de uma das grandes adaptações literárias do cinema, e um dos filmes mais bem-sucedidos entre os que tem elenco multinacional. Vejam alguns dos nomes: Audrey Hepburn, Henry Fonda, Oskar Homolka, Vittorio Gassman, Anita Ekberg, Herbert Lom, Mel Ferrer. Agora imaginem que desse caldeirão tenha saído uma obra de tamanha unidade e coesão. Pronto, você está diante de um filme de Vidor. (SA)


A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957), de Jacques Tourneur

Filho do diretor Maurice Tourneur, Jacques migrou da França natal para os EUA ainda criança, e desenvolveu uma brilhante parceria com Val Lewton, antes de filmar alguns belos filmes nos anos 50. Este A Noite do Demônio foi realizado na Inglaterra, e teve uma versão picotada para os EUA. Tem alguns efeitos que podem provocar risos hoje em dia. O que resta é a inacreditável manha de Tourneur, diretor especialista em suscitar o medo a partir de detalhes ínfimos como o vento na copa das árvores. (SA)

 

Um Rei em Nova York (A King in New York, 1957), de Charles Chaplin

Depois de se exilar dos EUA após ter problemas com a histeria anti-comunista, Charles Chaplin realizou na Inglaterra esta sátira a era da televisão. Um filme de um velho, com certeza, com um olhar bastante amargo, mas de grande lucidez. De um cineasta no auge da obra, que como sempre atinge o sublime. (FF)

 

Amargo Triunfo (Bitter Victory, 1957), de Nicholas Ray

O filme que fez Godard definir que o cinema é Nicholas Ray. Realizado quando o cineasta já estava com suas relações com os grandes estúdios bastante desgastada, a partir de um roteiro do crítico inglês Gavin Lambert e com uma equipe técnica majoritariamente européia. Trata-se de um dos mais belos filmes de guerra já feitos. As cenas com os soldados simplesmente caminhando pelo deserto estão entre as maiores da carreira deste grande cineasta. (FF)

 

O Rei e o Cidadão (King and Country, 1964), de Joseph Losey

Na lista negra do macartismo, Losey desembarcou na Inglaterra em 1953, e lá desenvolveu a maior parte de sua carreira. O Criado é seu filme mais conhecido, celebrado, atacado, mas meu preferido desse período dos anos 60 é que ele rodou em seguida, O Rei e o Cidadão , que não tem metade do prestígio do anterior, mas é mais paradigmático do estilo do diretor, com seus planos-seqüências que adentram na lama e os zooms lentos, aliados a cortes secos, que nos colocam irreversivelmente no centro das ações e do espaço filmado. (SA)

 

Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), de Stanley Kubrick

Um dos filmes mais engraçados a tratar da guerra fria, e o mais perto que Kubrick poderia chegar de um pré Monty Python. Peter Sellers é o grande ator responsável por várias das gags, e a crueldade não chega a ser demolida pelo sarcasmo, numa conjunção das mais amargas já feitas. O filme ainda conta com a interpretação antológica de George C. Scott. (SA)

 

Falstaff - Chimes at Midnight (1965), de Orson Welles

Orson Welles tinha tanto investimento e crença na história do bufão das obras de Shakespeare que abriu mão aqui de grande parte dos recursos barrocos que fizeram seu nome. A sequência da batalha é justamente celebrada, um primor de invenção onde Welles usa alguns poucos recursos para extrair espetáculo. O grande momento porém – podemos ir mais longe e afirmar que se trata do clímax de toda a obra do cineasta – é a seqüência da rejeição de Fallstaf pelo príncipe. (FF)

 

Bunny Lake Desapareceu (Bunny Lake is Missing, 1965), de Otto Preminger

Conto estranho de uma mente doentia, Bunny Lake Desapareceu é também a tentativa de Preminger de entender a Inglaterra da época. No auge da invasão inglesa nos EUA (quando bandas como Beatles e Rolling Stones entraram de sola no mercado americano), o diretor de Laura faz o caminho inverso para tentar entender o fascínio da juventude que estava dominando a cultura pop mundial, ao mesmo tempo em que nos entrega um filme misterioso e inusitado. E maravilhoso, para dizer o mínimo. (SA)

 

Um Caminho para Dois (Two for the Road, 1967), de Stanley Donen

Um delicioso filme errado do sensacional Stanley Donen. Na verdade, uma tentativa de se adequar aos mandamentos do cinema moderno via Nouvelle Vague resultou num híbrido de comédia romântica com alguns insights muito inteligentes sobre a vida a dois. Um dos grandes achados é perceber que Audrey Hepburn e Albert Finney poderiam ter uma química que seria muito bem captada pela lente. Outro é a música sensacional de Henry Mancini. (SA)

 

O Estrangulador de Rillington Place (10 Rillington Place, 1971), de Richard Fleischer

Fleischer já havia realizado, três anos antes, um filme irmão deste, o americano e inferior O Homem que Odiava as Mulheres. Este outro Estrangulador, vivido por Richard Attemborough (ator muito bom, cineasta médio), num de seus papéis mais marcantes do cinema. Fleischer é um diretor sempre subestimado, e este é um de seus melhores filmes, e uma verdadeira lição de como se filmar uma história real de crime. (SA)

 

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), de Stanley Kubrick

Kubrick conseguiu, neste filme, captar a essência da Inglaterra do início dos anos 70 (pós- Swinging London ), ao mesmo tempo em que desenvolvia em imagens a fábula futurista de Anthony Burgess, uma crítica ferrenha aos mecanismos de punição aos atos violentos. Antes, uma crítica à maneira comumente conservadora de se aceitar os impulsos violentos dos seres humanos. Perturbador, ainda mais hoje. (SA)

 

Verdades e Mentiras (F. for Fake, 1974), de Orson Welles

A grande farsa do cinema. Um dos filmes mais inteligentes a lidar com a idéia de enganação cultural e falsificação, até mesmo em sua estrutura adaptada para ser uma senhora fraude. Welles se diverte, e já que não pode realizar a carreira que quis no cinema, demonstra seu olhar preciso e sua habilidade em confundir para criar uma derradeira obra-prima. Deveria ser obrigatório em faculdades de cinema, para que os truqueiros metidos a autores enfiassem a viola no saco e partissem por aí. (SA)

 

A Volta da Pantera Cor-de-rosa (The Return of the Pink Panther, 1975), de Blake Edwards

Tinha que ter ao menos um Blake Edwards na lista, e esta é uma de suas produções mais inglesas, filmadas nos lendários estúdios Shepperton, com o Inspetor Clouseau tendo que resolver novamente o roubo da jóia do título. Como a história não tem nada de novo, sobram oportunidades para Edwards exercitar seu gosto por piadas nonsense, mas com profundo senso de cinema. (SA)

 

Cidadão Klein (Mr. Klein, 1976), de Joseph Losey

No primeiro filme realizado por Losey na França, há o uso perfeito e efetivo do plano-seqüência como forma de colocar Klein no centro de um redemoinho kafkiano do qual ele não conseguirá sair. Já tido como o maior filme a tratar do período da Ocupação Nazista, Cidadão Klein tem algumas das melhores seqüências que Visconti não filmou. O réquiem de um escroque - vivido por Alain Delon - é filmado com elegância ímpar, e o senso habitual de Losey com o entorno burguês e intelectual. (SA)

 

China 9, Liberty 37 (Amore, Piombo e Furore, 1978), de Monte Hellman

Monte Hellman vai a Itália rodar um faroeste e como imaginamos os resultados não podiam ser mais distantes de um spaghetti. China 9 tem alguns problemas (especialmente por conta de seu ator central Fabio Testi), mas é um filme sempre surpreendente e inventivo e com outra das parcerias impressionantes entre Warren Oates e o cineasta. Atenção para a participação especial de Sam Peckinpah. (FF)

 

Fedora (1978), de Billy Wilder

Ainda mais pessimista e feroz que Crepúsculo dos Deuses, com o qual guarda semelhanças temáticas e de tom, esta é a última obra-prima que Billy Wilder dirigiria, com produção franco-alemã. Novamente vemos William Holden, como um fantasma do filme anterior, e uma atriz, vivida por Marthe Keller, que tentou desafiar a natureza e foi castigada por isso. A direção sombria de Wilder impressiona, mesmo para quem está habituado à sua visão pessimista e corrosiva do mundo. (SA)

 

O Fator Humano (The Human Factor, 1979), de Otto Preminger

A obra final de Preminger é uma das despedidas mais tristes de todo o cinema. O excelente romance de Graham Greene sobre a procura por um espião russo dentro da inteligência inglesa serve de estágio final para todo um projeto estético. O Fator Humano é mais impactante quanto mais insensível seu mundo se revela e é dos filmes mais duros feitos sobre a guerra fria. (FF)

 

Femme Fatale (2002), de Brian DePalma

De Palma inteligentemente constrói uma situação tal que possibilita o diálogo final, variação corajosamente infame do "garota dos meus sonhos". Femme Fatale foi filmado na França, com elenco europeu - e Peter Coyote. Após o fracasso do belo Missão: Marte, era necessário ao diretor buscar novas fontes de financiamento fora dos EUA. O resultado é um dos grandes filmes do diretor, e um dos mais subestimados também. (SA)

 

Maria (Mary, 2005), de Abel Ferrara

 

Após Blackout, Ferrara volta a colocar Matthew Modine e imagens roubadas, em um filme que tem três protagonistas - além de Modine, Forest Whitaker e Juliette Binoche - e um desespero tocante. Filmado na Itália, com equipe técnica italiana, Maria tem alguns dos momentos religiosos mais questionadores de sua carreira, e é um dos grandes filmes do diretor. (SA)

 

 

LADO B

 

 

Grilhões do Passado (Mr. Arkadin, 1955)

Novamente Welles é um magnata que tem o passado investigado. Um enorme filme.

 

O Rato que Ruge (The Mouse that Roared, 1959), de Jack Arnold

Uma comédia do absurdo com um sensacional Peter Sellers.

 

O Criado (The Servant, 1963), de Joseph Losey

O filme mais conhecido de Losey é também mais um arraso de Dirk Bogarde.

 

O Diabo é Meu Sócio (Bedazzled, 1967), de Stanley Donen

Donen, Raquel Welch e Peter Cook compensam o chatinho Dudley Moore, que aqui está longe de comprometedor.

 

O Fiel Camareiro (The Dresser, 1983), de Peter Yates

Após ter feito uma carreira de sucesso nos EUA, com Bullit, Os Quatro Picaretas e Krull, Yates volta à sua Inglaterra natal para este belo filme.

 

Os Vivos e os Mortos (The Dead, 1987), de John Huston

O belo crepúsculo de uma carreira.

 

Uma Rua Sem Volta (Street of No Return, 1989), de Samuel Fuller

Filmado em Lisboa, com Keith Carradine. É o último suspiro de um dos grandes no cinema.

 

O Miado do Gato (The Cat's Meow, 2001)

Filmado na Grécia, sobre o assassinato no Iate do magnata William Randolph Hearst.

 

Go Go Tales (2007), de Abel Ferrara

Quando ganhar uma bolada na loteria só serve para quitar as dívidas. Apesar disso, um filme dos mais agradáveis de se ver.


 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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