Os Melhores Filmes de 2007
(segundo os críticos da Revista Paisà)

Top 20
Votos individuais dos redatores



1 – Medos Privados em Lugares Públicos (Alain Resnais)

 

O que a Paisà disse. Não que os filmes de Resnais a partir da década de 80 tenham passado por qualquer transformação radical. Ele sempre foi o maior expoente do que podemos chamar de realismo impressionista. Desde os tempos de Hiroshima, mon Amour o que estava em jogo era como o cineasta poderia transcrever em termos concretos o estado de espírito de seus personagens. As peças teatrais algo arcaicas que vem atraindo suas atenções desde então são apenas um bom filtro para esta arte, permitindo ao cineasta trabalhar sua forma tão particular de realismo do artifício, em que toda a falsidade em cena existe em função do mais exato dos sentimentos. A arte de Resnais é o perfeito oposto do naturalismo crível que normalmente passa por realismo por aí. Seu cinema é o da crença de que para ir ao fundo do problema todos os recursos em mãos são válidos; que um cenário teatral pode expressar algo muito mais verdadeiro na tela do que a mais realista das locações.

Filipe Furtado

O que disseram. A sujeira, a ingratidão da imagem como um comentário do e sobre o mundo, então? Talvez seja isso, no fundo, o que me agrada em Medos Privados em Lugares Públicos. A imagem não se contenta em ser, ela comenta sua própria figuração, sua própria estranheza. E é sem dúvida por isso que o filme pareceu cínico, sem carne para alguns. O que a meu ver ele não é. O que é figurado é já o fim de alguma coisa (desde o começo do filme), como se Resnais encenasse o fim de seu próprio cinema, o fim de seu mundo. O fim, no sentido de que o belo teria desertado: o fim do belo como uma porta aberta para a morte.

Jean-Sebastian Chauvin, em seu blog (tradução de Luiz Carlos Oliveira Jr. para a Contracampo)

 


 

 

2 – Maria (Abel Ferrara)

 

O que a Paisà disse. Pois se, como acreditamos, Mary inscreve no seu interior um processo de interposição das convicções messiânicas comuns à obra de Glauber às enchentes insurgentes de afetos e demonstrações de amor caras ao cinema de Cassavetes, tal processo é provocado menos por uma vontade de integração e subseqüente conciliação que por uma incontrolável aceitação plena e irrestrita da massa informe do real, jamais vista com tal poder e abundância em qualquer outro filme de Ferrara e apenas algumas vezes entrevista na imensa totalidade da produção cinematográfica mundial.

Bruno Andrade

O que disseram. Por aí já se vê, se não aonde Abel Ferrara quer chegar, ao menos de onde ele parte: a fé não é uma coisa dada, evidente. Sua experiência convive com a dúvida, a negação e o desespero. Essa pode até não ser a fé da maior parte dos homens, inclusive porque as igrejas costumam censurar a dúvida (que dirá a negação e o desespero). Mas é a de Abel Ferrara .

Inácio Araujo, na Folha de São Paulo

 


 

3 – Em Busca da Vida (Jia Zhang-ke)

 

O que a Paisà disse. O filme adquire, assim, um aspecto de filme súmula, carta de intenções de um crepúsculo social, já insinuado em Prazeres Desconhecidos, nem sempre visível e nem sempre sensível. Enquanto a China anda a passos largos para ser a nova grande potência mundial, muitos de seus habitantes conhecem a face fria das corporações, a dura realidade do progresso, e o preço alto a se pagar por ele. Em uma cena emblemática, um figurão ordena que seu caríssimo projeto - uma ponte sobre o Yang-tsé, tenha suas luzes acendidas, formando um espetáculo visual impressionante, que interrompe a harmonia escura entre o céu noturno e o rio. A potência financeira parece surgir da necessidade exibicionista de alguns de seus agentes, é o que se pode concluir com essa cena.

Sergio Alpendre

O que disseram. O que está em jogo em Em Busca da Vida não é simplesmente a denúncia ou a observação das injustiças, mas a tentativa de compreensão de um momento histórico complexo demais para mensagens diretas e gerais. Tão complexo, inclusive, que o aparecimento repentino de um ovni que cruza o céu num dado momento do filme apenas se incorpora às modificações "de ficção científica" pelas quais passa a terra revolvida, a terra submersa e o comportamento das pessoas.

Ruy Gardnier, na Contracampo

 


 

4 – Os Anjos Exterminadores (Jean-Claude Brisseau)

 

O que a Paisà disse. Uma prova de que Brisseau possui discernimento sobre o que está discutindo – o filme é mais isso, uma discussão – reside no fato de que François não é visto como “um cineasta injustiçado e incompreendido” , ao contrario: o culpado pelas suas feridas irreversíveis não é senão ele próprio. Questão de lucidez de discurso.

Fernando Watanabe

O que disseram. Espiar as fantasias e prazeres dessas jovens nos deixa ao mesmo tempo mais próximos e distantes das suas experiências privadas de desejo. É este inatingivel, buscando os mesmos limites encontrados na captura da espiritualidade, que transforma todos aqueles traseiros e rostos excitados em algo maior.

Nicolas Rapold, no New York Sun

 


 

5 – Os Donos da Noite (James Gray)

 

O que a Paisà disse. Os Donos da Noite é, por fim, um filme de profunda crença e entrega ao drama, obra de quem acredita nos picos de intensidade que podem ser extraídos do drama, na força de expressão contida na face de um Mark Whalberg, na clareza moral e política encontrada na tragédia de um homem, em como uma comunidade se organiza, como suas regras, desejos e deveres podem ser representados na tela.

Filipe Furtado

O que disseram. O que lhe interessa, contudo, não é obedecer aos cânones da verossimilhança e, sim, conseguir reproduzir texturas e tonalidades de sentimentos dos estados de alma de seu protagonista. Para além dos fatos e da ação, o que Gray busca é captar as emoções que acompanham um movimento de ascensão e queda, a ruptura brusca que distingue os paraísos artificiais da droga dos infernos realistas do luto e da melancolia.

Cassio Starling Carlos, na Folha de São Paulo

 


 

6 – Império dos Sonhos (David Lynch)

 

O que a Paisà disse. Estamos diante de um Lynch realista – ou seja, que parte não da realidade, mas de um jogo particular com signos do real. Império dos Sonhos é um dos mais belos filmes já feitos. Manchas, borrões, surtos de clarão ou de escuridão, imagens precarias, mal definidas, não raro deformadas digitalmente – um tachismo videografico composto de forma esquizofrênica, contrastando imagens que são puro afeto com imagens que se fundam na ausência radical de afeto.

Luis Carlos Oliveira Jr

O que disseram. Lynch transfere sua própria percepção volátil para seus personagens, e seus dois melhores filmes são sobre estar preso e vunerável, apesar de ambos terem intervalos felizes de fuga, concebidos em formas musicais – uma canção sobre o paraíso em Eraserhead e a magnífica seqüência celebratória nos créditos finais de Império dos Sonhos , um video musical felliniano encenado a partir de " Sinnerman", de Nina Simone .

Jonathan Rosenbaum, no Chicago Reader

 


 

7 – Lady Chatterley (Pascale Ferran)

 

O que a Paisà disse. Constance se torna cada vez mais bela e poderosa, invocando até o lamento sensível do amado, que, como muitos homens, sente que no mundo não há lugar para ele. A força do filme é também a força da natureza. A força de uma paixão avassaladora que transforma tudo em vida.

Sergio Alpendre

O que disseram. Embaraço de amor: cada um tanto soberano quanto subjugado. É este paradoxo que Pascale Ferran alcança ao filmar as cenas de sexo da maneira mais simples, e ao se voltar menos para o ato em si do que a todos os murmúrios em torno dele, para o assombro daqueles que o alcançam.

Emmanuel Bordeau, na Cahiers du Cinema

 


 

8 – Cartas de Iwo Jima (Clint Eastwood)

 

O que a Paisà disse. O que Clint Eastwood questiona aqui tanto quanto em Crime Verdadeiro , Os Imperdoáveis e Sobre Meninos e Lobos , é a morte como evento (ou ato) gerador de significado.

Francis Vogner dos Reis

O que disseram. Cartas de Iwo Jima é uma caminhada inexorável até a morte, populada por aqueles que não têm certeza que estão prontos, mesmo que sua filosofia de guerra lhes diga que estão.

Michael Koresky, na Reverse Shot

 


 

8 – Jogo de Cena (Eduardo Coutinho)

 

O que a Paisà disse. Não importa quem é “real” ou quem é “atriz”. Pouco importa, também, a confusão em si; mas sim, e muito mais, o que se cria a partir dela. É o fato do filme deixar bem claro que entre um depoimento dito real e uma atriz encenando algo não há um mais sincero, mais documental, mais revelador de nuances individuais. Os limites desaparecem. Ou não. Não estamos reféns de um dispositivo que nos manipule.

Francisco Guarnieri

O que disseram. As surpresas são freqüentes, a instabilidade é constante. A cada novo rosto ou nova cena, temos que reajustar nossa expectativa e nossa relação de "fé" no que ouvimos. O procedimento sublinha mais uma vez que a diferença entre documentário e ficção é mais uma questão de quem consome do que de quem produz. Documentário é aquilo em que decidimos "acreditar".

Carlos Alberto de Mattos, em O Globo

 


 

10 – A Conquista da Honra (Clint Eastwood)

 

O que a Paisà disse. Não é o menor dos achados de Eastwood mostrar o hasteamento, em primeiro lugar, como reconstituição pública em um estádio. É um belo exemplo de narrativa intricada que trabalha em favor do filme: de cara, instaura-se a propaganda como terreno da política.

Juliano Tosi

O que disseram. Este “olhar além” é o que transforma o filme numa sucessão de imagens em tempo e espaços diferentes, cuja organização caótica se dá por associações sensíveis, promovidas pelo “olhar de mais perto” (olhar com os personagens), nos conduzindo a reflexões impactantes.

Tatiana Monassa, na Contracampo

 

11 – O Hospedeiro (Bong Joon-ho)

 

O que a Paisà disse. O Hospedeiro é um objeto em extinção: um genuíno filme popular, feito para ser apreciado por todos os espectadores, do tipo que era comum há 50 anos, mas hoje é inexistente. Pode não ser o melhor filme do ano, mas, para quem ama e tem interesse no futuro do cinema narrativo, pode ser o mais importante.

Filipe Furtado

O que disseram. Há espaço em O Hospedeiro para grandiosidade, e logo nos primeiros minutos já somos apresentados a uma criatura explicitamente digital que invade a tela antes que tenha dado tempo de sequer criarmos expectativa. Um erro? Não. O olhar de Joon-ho para seu monstro é também o da desconstrução narrativa. Se há o medo do que não é visto, porque não evidenciar diretamente o objeto principal?

Gabriel Martins, no Filmes Polvo

 

12 - Cão Sem Dono (Beto Brant)

 

O que a Paisà disse. Cão Sem Dono não é só o melhor filme de Beto Brant, mas um dos grandes filmes a entrar no circuito brasileiro neste ano. Um filme que se disfarça de pequeno, mas que tem grandiosidade no retrato das emoções humanas, no calor que se percebe nesses personagens tão ricos, tão densos, tão difíceis de serem enquadrados numa classificação reducionista.

Sergio Alpendre

O que disseram. Cão sem Dono é uma fatia de vida, como se diz, dotada de força particular, justamente porque não apela para qualquer outro tipo de expediente fora das contingências normais da vida dos seres humanos. Estamos diante de um realismo crítico, depurado, próximo das coisas mesmas, das sensações, da dor, do afeto, da incerteza. Próximo dessa pungência extrema que se experimenta diante de um amor jovem, voraz e perdido.

Luiz Zanin Oricchio, em O Estado de São Paulo

 

13 – Zodiaco (David Fincher)

 

O que a Paisà disse. O que fascina neste Zodíaco , e o põe bem à parte da obra anterior do seu autor, é justamente ser um filme materialista sobre a dúvida. A autópsia de um caso em aberto que por mais minuciosa que se revele não tem como transformar seu amplo universo de informações numa certeza.

Filipe Furtado

O que disseram. Apesar de toda sua destruição, tristeza e fracasso, suas vidas arruinadas e esvaziadas, Zodíaco oferece algo raro: um retrato exato de um amplo esforço humano conjunto ao longo de uma grande passagem de tempo.

Kent Jones, na Film Comment

 

14 – Planeta Terror (Robert Rodriguez)

 

O que a Paisà disse. Uma aposta arriscada foi feita, e existe uma linha tênue entre o erro e o acerto, um pequeno deslize faria de Planeta Terror apenas uma sátira de suas referências, mas isso não acontece e faz deste filme mais que uma bela homenagem ao cinema de gênero, a certos autores e ao absurdo. Uma obra de cinema. Um grande filme que trabalha apenas os códigos do cinema, que será apreciado principalmente por aqueles que quiserem ver muito antes de entender.

Allan Peterson

O que disseram. Uma narrativa que se dá antes de tudo pela disposição horizontal dos acontecimentos, em que o tom e o ritmo se dão num caminho direto, certo (alguns dirão “óbvio”) e característico de um sólido cinema de aventura (como Raoul Walsh em seus filmes de pirata) ou da segura objetividade de uma canção punk de 1977. Planeta Terror pode ser uma versão cinematográfica do disco Bad Music for Bad People dos Cramps.

Francis Vogner dos Reis, na Cinética

 

15 – A Comédia do Poder (Claude Chabrol)

 

O que a Paisà disse. A Comédia do Poder é um filme mais sobre o poder entre indivíduos, nas relações do dia a dia – profissionais e domésticas – que o poder das instituições nas quais essas pessoas se relacionam (como nos documentários de Frederick Wiseman).

Bruno Amato Reame

O que disseram. Em Chabrol, nunca um leve movimento panorâmico da câmera é apenas um ajuste espacial de quadro com o movimento dos atores; nunca um enquadramento que mostre um personagem em primeiro plano com um outro ao fundo fora de foco é apenas uma questão plástica: significados são construídos cerebralmente por cada detalhe de sua carpintaria audiovisual.

Eduardo Valente, na Cinética

 

16 – Maria Antonieta (Sofia Coppola)

 

O que a Paisà disse. Estamos, portanto, diante de um olhar parcial: não apenas como filiação, mas também como olhar que vê parte do mundo, a História como versão.

Juliano Tosi

O que disseram. O interesse do filme desloca-se da rainha para Luís 16, que, afinal, é o senhor de seu destino. E Luís é um rei-desastre. Se Luís 14, outro jovem monarca que chegou ao poder cercado de desconfiança, submeteu a nobreza pelo espetáculo da corte, Luís 16 apenas repete, como um diretor de cinema acadêmico, os rituais de poder: segue a ritualística, mas é vazio.

Inácio Araujo, na Folha de São Paulo

 

17 – Possuídos (William Friedkin)

 

O que a Paisà disse. Friedkin evita quase sempre a sensação de estarmos assistindo um caso clínico tendo Agnes e Peter como cobaias. Ao invés disso, seu filme soa como uma alucinada história de amor, entre duas pessoas que em seus delírios acharam proteção de um mundo onde coisas terríveis não têm explicação.

Bruno Amato Reame

O que disseram. Essa relação íntima do filme com a paranóia de seu protagonista reforça o caráter quase epidêmico desta. A paranóia de Peter contamina não apenas Agnes, mas a própria imagem, que oscila entre a adesão (no abalo causado pelos helicópteros) e a negação (na recusa em materializar a imagem dos insetos).

Leonardo Mecchi, na Cinética

 

18 – Ligeiramente Grávidos (Judd Apatow)

 

O que a Paisà disse. A imersão de Apatow neste universo é tão integral, abraçando um modo de vida e forma de ver um mundo, que seria incoerente cobrar dele os eventuais machismos ou suas tendencias consumistas, pois Apatow abraça tudo, inclusivo isso, de peito aberto.

Guilherme Martins

O que disseram. É no retrato das individualidades que a comédia tira suas vantagens. A mais evidente encontra-se nas oposições entre papéis femininos e masculinos e nas expectativas sempre frustradas de uns em relação aos outros.

Cassio Starling Carlos, na Folha de São Paulo

 

19 – Tropa de Elite (José Padilha)

 

O que a Paisà disse. O filme é brilhante na radiografia de uma situação caótica em que vivemos, e parece nos dar vários lados possíveis de abordagem dessa situação. Só que ele não expõe o caminho para possíveis soluções. Na verdade, dada a impossibilidade de se fazer isso no momento, ele apenas constata, e nos coloca bem no cerne dos mecanismos de sua constatação. O filme vai a campo, colhe depoimentos, flagra as seqüelas, como um documento preciso de uma época e de um lugar.

Sérgio Alpendre

O que disseram. O mínimo a dizer de Tropa de Elite é que o filme escancara a insanidade desse estado de coisas, não como parábola ou denúncia, não como legitimação ou apologia, mas simplesmente como quem observa um modus operandi intolerável que, ao mesmo tempo, é o café com leite diário das operações policiais do Rio de Janeiro.

Ruy Gardnier, na Contracampo

 

20 – Em Paris (Christophe Honoré)

 

O que a Paisà disse. O romantismo desesperado de Honoré explode com freqüência em ações exageradas, alguns tons acima, como se o excesso de sentimento já não coubesse no corpo dos personagens.

Filipe Furtado

O que disseram. Honoré claramente tem um conceito incomum de ritmo; ele permite tempo para as cenas importantes, mas arranja espaço para os mais estranhos interlúdios – o pai arrastando uma árvore de Natal pela calçada, ou Paul escutando um velho vinil de Kim Wilde.

Richard Porton, na Film Comment

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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