Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito

(Brasil,2008). De Glauber Filho e Joel Pimentel. Com Carlos Vereza, Lucio Mauro, Caio Blat. 75min.



É uma tarefa árdua tentar definir o que hoje se configura um fenômeno de público dentro do cinema nacional. Já que diversos fatores implicam nessa equação: a falta de espectadores, tanto pelo custo do ingresso quanto pela total falta de interesse com relação a produção brasileira; a queda constante no número de salas no país (o Cine Paissandu e o Palácio anunciaram o fechamento de portas no RJ e dois complexos, um em Ribeirão Preto e outro em Juiz de Fora, encerraram as atividades); e a ocupação das salas pelos blockbusters hollywoodianos, agora também com inúmeras versões dubladas de seus filmes, que, finalmente, conseguiram destituir do trono nacional Xuxa e Didi, que amargaram um fracasso não visto antes em 2008.

Alguns articulistas, mais interessados em números e estatísticas, chegam a proferir a seguinte afirmação: “agora com as leis de incentivo, os filmes brasileiros não dão prejuízo, pois já estão pagos antes de serem exibidos”. Ao seguir esse pensamento, um jovem realizador, então, deve apenas se concentrar em fazer seu filme para amigos, que, provavelmente, vão conclamá-lo como gênio. Ou seja, o princípio essencial da sétima arte parece perdido em meio a reflexões tolas que não direcionam para lugar algum. A existência de uma obra só se justifica no diálogo com o público. E não há um diretor sequer que queira o seu filme visto por menos de duas mil pessoas, caso recente de algumas produções, independente do quão artístico e autoral o projeto seja. Portanto, dentro desse universo é surpreendente que o praticamente desconhecido drama Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito, de Joe Pimentel e Glauber Filho, tenha conseguido atingir um público de mais de 130 mil espectadores em apenas 10 dias de exibição, sem que por trás tenha tido uma máquina de divulgação e com um número inferior de salas a Os Desafinados, de Walter Lima Jr., já que ambos estrearam na mesma data, 29 de agosto.

O tema do espiritismo por si só já atrai a atenção da audiência brasileira: há casos clássicos por aqui sobre produções que tiveram êxito acima da média nos cinemas por tratarem do sobrenatural (Ghost, de Jerry Zucker, Morrendo e Aprendendo, de Ron Underwood, entre outros) e se instaurou também um filão para produções serem lançadas no Brasil em DVD. Até mesmo projetos televisivos de baixa qualidade, como Falando com os Mortos, de Stephen Gyllenhaal, permanecem entre os mais alugados. Mas isso não é justificativa para apostar que Bezerra de Menezes seria um sucesso. Porque se o êxito de uma empreitada cinematográfica se pautasse pelo tema, o Brasil teria inúmeros filmes voltados para o futebol. O trabalho da produtora Trio Filmes, em parceria com a instituição Estação da Luz, foi identificar a potencialidade de público para a cinebiografia e iniciar silenciosamente uma divulgação interna nas comunidades espíritas. Sendo assim, a chegada do longa ao circuito não pareceu uma surpresa para esses inúmeros fiéis. Afinal, o filme foi produzido para atingir esse público-alvo. Algo completamente diferente do marketing feito para Encarnação do Demônio, que demarcou o retorno às telas de José Mojica Marins e seu mítico personagem Zé do Caixão.

Projeto de encomenda ou não, Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito foi assinado, e não por anônimos ou uma entidade espírita. E isso não pode destituir a dupla de realizadores de críticas pelo trabalho que realizaram, pois parecem desconhecer até mesmo o que seja uma simples narrativa cinematográfica. O filme é inteiramente estruturado a partir de uma narração em off do próprio Bezerra de Menezes (Carlos Vereza) em que conta passagens de seu diário. O problema não está na escolha do elemento narrativo, mas sim que cada imagem é reiterativa da fala em um clima pesaroso e que não permite uma apreensão mínima daquilo que se vê: tanto os olhos abertos quanto fechados por parte do espectador compõe a mesma redundância. Em certo momento, há um plano em que o narrador escreve e sua voz repete a palavra escrita.

A fotografia em tons esmaecidos, sempre mais próxima do terroso, transforma em uma aberração a imagem de Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito. O enquadramento permanece no meio do caminho entre um filme de época, nitidamente de baixo orçamento, e uma produção televisiva. Só que os diretores não se limitam a tentar contar, de maneira maniqueísta, a história do “médico dos pobres” e buscam um registro rígido em uma encenação constrangedora, com direito ao linguajar rebuscado mesmo do indivíduo menos abastado, reforçada pela falta de esmero na direção de elenco, que não torna crível absolutamente nenhuma ação. Até mesmo os elementos mais básicos, como um plano e contra-plano, nunca conseguem alcançar um projeto estético mínimo. Porém, nada parece tão desabonador quanto a montagem episódica de minissérie, com o clímax da cena sendo cortado bruscamente em uma tela preta, o que provoca uma nítida descontinuidade rítmica e uma emenda na trilha sonora entre planos.

Ao responder como iria filmar O Sapato de Cetim, que é um monumento cinematográfico de sete horas de duração, o cineasta Manoel de Oliveira disse que era simples: vou rodar página por página do romance homônimo de Paul Claudel. É possível traçar um paralelo - existe até um primeiro plano da proa do barco no mar que remete a Um Filme Falado - entre a obra de Manoel e Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito: um é o completo oposto do outro, apesar da utilização de elementos semelhantes na narrativa: a narração em off, a direção de arte de época, as cartelas ilustrativas, a austeridade da encenação e a utilização da elipse para contar uma história que perpassa décadas. Mas se do lado do realizador português encontra-se a vivacidade do cinema do outro um audiolivro para auto-ajuda.

Além de o roteiro mitificar ao máximo a figura de Bezerra de Menezes, que demonstra ser alguém infalível e merecedor de todos os louros, em uma cinebiografia que explora os limites da chapa branca, há ainda o golpe de misericórdia no espectador: os depoimentos de fiéis do biografado, considerado por estes um santo, para legitimar toda a narrativa. É a reiteração da reiteração. Nada mais compreensível em um filme que se encerra com um protesto despropositado contra o aborto.

Leonardo Luiz Ferreira

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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