Um Coração Simples

(França,2008). De Marion Laine.



 

É uma tarefa árdua adaptar para cinema a obra do escritor Gustave Flaubert. Até mesmo Claude Chabrol realizou um filme menor em sua adaptação para a obra-prima Madame Bovary. Isso porque a escrita de Flaubert é ao mesmo tempo concisa e descritiva em sua completa devoção a personagens femininos. Provavelmente, o cineasta português Manoel de Oliveira – que levou para as telas com perfeição a obra de Camilo Castelo Branco, e de outros escritores – seria capaz de dar vida a romances rebuscados e de entrega absoluta aos elementos romanescos.

Um Coração Simples, que é um dos grandes contos da história da literatura, se transformou de maneira ousada na estréia de direção da atriz Marion Laine, que não reserva nenhum trabalho memorável de interpretação. E ela, por ter alma feminina em sua natureza, se imaginou capaz de transformar em imagens às palavras de Flaubert e colocar sangue e osso em uma personagem literária fascinante como Félicité. O que resulta é uma adaptação correta e morna, que soa antiquada para platéias modernas porque hoje em dia não se acredita mais na inocência de intenções. Há que se olhar com outro olhar para a personagem: uma interiorana ingênua que consegue enxergar felicidade, como seu próprio nome, nas pequenas coisas da vida. Mas Marion é responsável em parte por essa descrença do espectador ao filmar de maneira abrupta a construção de sua personagem. É extremamente desconjuntada a apresentação de Félicité em um flashback, que não dura 10 minutos e surge na tela como explicação para a fuga desenfreada da moça nos primeiros planos, sobre sua paixão fulminante por Theo.

À parte a ambientação de época em que a direção de arte segue o padrão de produções francesas e o vocabulário é adequado, apesar do refinamento de Flaubert não ser notado, Um Coração Simples existe por Sandrine Bonnaire, que imprime camadas na interpretação e foge de cacoetes de personagens loucas. A sua composição é tocante, ainda que a diretora queira gerar contraste a cada instante de sua bondade em detrimento dos outros. Isso se torna incômodo em planos como a da chicotada que Félicité recebe no rosto sublinhada por uma trilha emocional destoante. Mais uma vez, como registrar o drama se torna a maior fragilidade dramatúrgica de grande parte dos realizadores.

Leonardo Luiz Ferreira

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

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Programação visual: Renan Fogaça

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