Cinema - Cultura - Comportamento
(Brasil,2008). De Walter Lima Jr. Com Rodrigo Santoro, Claudia Abreu, Selton Mello, Angelo Paes Leme. Downtown. Projeção: 1.85:1. 131 min.
Nostalgia costuma surgir em filmes de duas maneiras: de forma intensa com cada imagem carregando o peso de estar ali sendo revivida e outra generalizante onde cada imagem significa um vago momento passado glorioso. Como Era Verde o Meu Vale, de John Ford, exemplifica perfeitamente a primeira. Os Desafinados nos diz muito sobre o que há de errado com o segundo grupo.
Trata-se sobretudo de uma questão de falta de especificidade. O que choca em Os Desafinados – já que sempre esperamos muito de um cineasta como Walter Lima Jr – não é a narrativa anêmica ou a forma um tanto preguiçosa com que muitas cenas importantes parecem ser construídas, mas como o filme é incapaz de sugerir o momento que deseja celebrar. Em Os Desafinados reina o genérico. A idéia de apresentar a ascensão da Bossa Nova a partir de um grupo fictício que viria da segunda geração do movimento e sem o status de um João Gilberto não é ruim, mas o que o filme retira dali é o mesmo que um verbete da wikipedia. O que impera aqui é uma incapacidade de dar corpo as situações que permanecem sempre esboços muito vagos.
Talvez por conseqüência disso, Os Desafinados tem problemas sérios com o tempo. Seja a passagem do tempo, como o interlúdio em Nova York bem exemplifica na sua incapacidade de sugerir que aqueles músicos estão ali a mais do que alguns poucos dias, seja simplesmente se instalar no seu momento. Sabemos das dificuldades de se fazer um filme de época com pouco dinheiro e Os Desafinados passa longe das soluções criativas de quem lida melhor com a questão, recorrendo a atalhos fáceis, por vezes constrangedores (especialmente numa cena envolvendo um discurso de Martin Luther King) e passando impressão geral de que esta dificuldade de reproduzir a época esta travando a dramaturgia.
Também não ajuda o fato de que as seqüências do presente, que servem para organizar a narrativa, se revelem um desastre completo, onde reina um mal estar que para além de matar o filme cada vez que se retorna a elas, contaminam o resto dele. Suspeito que a química dos atores jovens – que sugerem muito bem o prazer de estar tocando juntos num grupo – poderia ter carregado o filme por muitos dos seus defeitos, não fosse este mal estar constante sugerido pelo tom decrépito das cenas do presente.
Tudo isso colabora para que ele termine sendo um filme tímido em que, para celebrar este momento caro ao realizador, é preciso que ele exista exclusivamente como uma idéia descolada da existência destes personagens que vivem ele. Ou seja, um filme morto.
Filipe FurtadoRevista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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