O Discreto Charme da Burguesia

LE CHARME DISCRET DE LA BOURGEOISIE . (França, 1972). De Luis Buñuel. Com Fernando Rey, Delphine Seyrig, Bulle Ogier, Stephane Audran, Jean-Pierre Cassel. Lume. Projeção:1.66:1. 107min.




Discreto Charme é o filme de Buñuel, juntamente com O Anjo Exterminador, mais ciente da importância do ritual como um núcleo em torno do qual as grandes perversões coletivas se estabilizam e ordenam. Só que, no caso de Discreto Charme, estas grandes cerimônias de encenação de uma classe e um mundo são visadas sob um prisma tortuoso: um constante desnivelamento temporal . Na primeira cena, um grupo de amigos chega para jantar na casa de um casal; a mulher- marido ausente- os recebe de robe de chambre, espantada. Haviam se enganado de dia. Na terceira cena, o contexto se repete, só que os papéis são trocados. O casal se evade da casa, os convidados ficam à espera.

Este equívoco entre as linhas do tempo- passado, presente; ontem, hoje e amanhã-, este emaranhamento do tempo, melhor dizendo, ocasiona um desvio: a marcha ordinária e causalista do tempo cotidiano se inflete em direção a uma terceira dimensão temporal, fantasmagórica e circular; uma camada oculta de tempo, sustentada pela série de narrativas que são a pedra de toque do filme.

Esta nova temporalidade desvelada, povoada por complexos de culpabilidade e pulsões destrutivas, condena o universo dos burgueses a uma espécie de beco sem saída; ao congelamento em um painel hierático de gestos que não se completam e, portanto, como bons fantasmas psicanalíticos, voltam ainda uma vez; o tempo não mais se estira em uma linha reta, mas se fragmenta em uma série de ilhotas, ou estilhaços, fechadas em si mesmas e reguladas com a lógica draconiana das grandes construções demiúrgicas – daí a estrutura em episódios do filme. Nestes estilhaços, se coagulam e se figuram os estigmas típicos de todo estado entrópico: morte, degradação, corrupção. Aliás, não por acaso, praticamente toda sequência de O Discreto Charme é iniciada – ou acabada- por narrações de mortes violenta; é a morte, contida numa cápsula subterrânea de tempo, que vem interromper brusca e continuamente a cadeia temporal da vivência, do consumo e da produção burguesas- é importante lembrar que os protagonistas estão não apenas impossibilitados de comer como também de levar adiante qualquer outra forma de consórcio e interação social, pulsional ou profissional; de estarem reunidos, de formarem um grupo.

Falei mais acima em “fantasmas psicanalíticos”, figuras do olvido e da má-consciência, condenadas a repetição. Buñuel descreve aqui o fantasma de toda experiência ritualística de socialização burguesa, seu refoulé; nele, temos acesso ao inconsciente , não dos personagens- pois a Buñuel a psicologia definitivamente não interessa-, mas das instituições e dos ritos encarregados de representá-las. Só que os fantasmas do rito- os mortos que infestam as micro-narrativas do filme- acabam por tomar o lugar do próprio rito; o rito ( o jantar,a reunião de negócios, a relação sexual entre a burguesa cancerosa e Fernando Rey) é suspenso, negado: uma série de brochadas. Interdito. Buñuel inverte a lógica cultural: normalmente, o fantasma é o interdito, o não dito, o in-significável; aqui, o interdito é o cerimonial que o fantasma se encarrega de assombrar. Consumido de incompletude, destinado à repetição.

Parece-me que o que Buñuel, como bom entomologista e sobretudo cosmologista, quer representar aqui é algo muito próximo do círculo temporal maldito que encerrava os personagens do Anjo Exterminador. Ali, a fixação dos personagens no décor assombrado não é espacial, mas temporal. Assim, apenas com o concurso da memória, esta grande acólita do tempo- no filme de 1962, os personagens devem reconstituir os gestos da noite em que ficaram aprisionados para sair da casa-, o tempo pode retomar o seu curso normal e liberá-los da maldição.

Nos dois casos, a obsessão de Buñuel com o catolicismo se traduz na representação de uma espécie de Eternidade- domínio esvaziado de fluxo, transformação, de História; só que Eternidade como danação, e não redenção. Em O Discreto Charme, porém, o registro é muito mais descontraído e irônico; O anjo exterminador parece-me mais uma versão de teste, ou “ de tese”, deste circuito de danação- repetição, desorientação, estagnação- que o mestre quer encenar.

Aliás, a negação da transitividade e mobilidade históricas, hipostasiada no culto absoluto da aparência- e da reprodução ritualística da aparência- não é a grande tara ( e o maior pecado) burgueses?

Paralelos a este fracionamento regressivo do tempo, os deslocamentos espaciais. O discreto charme é um dos mais belamente coreografados filmes fora do domínio do musical; as constantes entradas e saídas do plano, os faux raccords, caracterizam um espaço horizontal extremamente percussivo e ondulante; mais do que nunca, as elegantíssimas panorâmicas de Buñuel traçam um perímetro elegante de civilização sobre os destroços de um mundo consumido pela danação; prodígios da ironia. E o zoom é a figura de estilo que desconcerta e embaralha o arqueado percurso das pans; o zoom- arauto da pulsão de morte- tem a função perversa de aliciar estes buracos atômicos que irisam o campo do plano e o tempo da cena, de indicar a cratera que se abriu na linha do tempo, de sincopar e asperizar o classicismo de Buñuel com os rastros de barbárie que dão a O Discreto Charme este fascínio envenenado de obras que entretém com a decadência uma relação ambígua e humorística, de atração e repulsa. Neste sentido, é um filme gêmeo de A Regra do Jogo e de alguns filmes de Ferreri, sobretudo A Comilança- com quem mantém semelhanças mais do que atmosféricas- e Não Toque na Mulher Branca.

Como contraponto a este vaudeville entre os planos, a monótona marcha dos personagens por uma estrada reta. A estrada que se lança para fora e para além da temporalidade demoníaca e entrópica de O Discreto Charme da Burguesia é das imagens mais perigosamente próximas do símbolo que Buñuel imaginou; logo ele, um cioso realista! Realista no sentido medieval, é claro. Ao submeter a neutralidade e pontualidade de seu registro de guarda-livros à potência analógica de um símbolo, Buñuel imprime o selo da alegoria ao seu filme.

Aliás: esta imagem alegórica e serena que se espraia pelo Discreto Charme não será a figura de uma utopia- horizonte de salvação, mas não para hoje, e talvez não para estes- que ousa colocar a cabeça para fora do tapete- para fora do filme,quero dizer?

Luiz Soares J únior
 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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