Cinema - Cultura - Comportamento
Café com Leite , de Daniel Ribeiro
Por Sérgio Alpendre
O nome do filme é Cinema em 7 Cores, numa alusão ao símbolo da causa gay (ou GLBTT, a nova sigla irritante que só reforça o gueto de uma preferência sexual), o arco-íris. As cenas de filmes raros do cinema brasileiro se sucedem, intercaladas a filmes mais conhecidos. As escolhas, no entanto, poderiam ser muitas outras. As cenas escolhidas poderiam se alongar mais, o material bruto daria um longa fácil fácil, intuo. É um dos trabalhos mais instigantes feitos nos últimos anos, e é tão óbvio, na linha do primo gringo Celulóide Secreto, que é necessário nos perguntarmos por que ninguém havia feito ainda no Brasil.
É um importante pontapé inicial para uma acomodação de animosidades. Nos debates do II For Rainbow não faltaram pessoas lúcidas que chamaram a atenção para a necessidade de se enfocar um homossexual sem alarde, sem levar em conta sua orientação sexual, como no belo curta de Daniel Ribeiro, Café com Leite. Mas só com maior produção, disseram, o homossexual terá uma representatividade plural como é a do heterossexual. Com razão, eu diria.
Resta, porém, um "i" sem pingo: por que será que nesse cinema da diversidade sexual exista tanto conservadorismo, tanta falta de diversidade estética? O que me parece é que já que o tema é tabu, não há necessidade de uma ousadia formal, ou de algum sinal de invenção. Salvo raras exceções, entre as quais o cinema de Lufe Steffen, diretor de Meu Namorado é Michê, é das melhores coisas surgidas recentemente, o cinema que lida com o homossexual carece de inventividade formal. Mesmo alguns bons filmes como o já citado Café com Leite, ou Depois de Tudo, de Rafael Saar, ou Para Que Não Me Ames, de Dida Andrade e Andradina Azevedo, trabalham numa chave dramatúrgica clássica, extraindo desse classicismo toda a força que eles necessitam. Esse lado da moeda deve existir, claro, mas cadê o outro? Estará sempre sujeito a ser uma exceção? Pior é que não ousar no formato do curta-metragem denota uma certa covardia estilística em prol de um seguimento de cartilha que em nada faz evoluir o cinema. Há, na maioria das vezes, uma acomodação, seja a um academicismo que já não consegue ser disfarçado, seja num tipo novo de academicismo que deriva da noção de filme de arte, como exemplifica perfeitamente o limitado Para: Macedônio, de Claudemyr Barata. Em um outro caso, há ousadia em excesso, e idéias em escassez, como é o caso de Filthy, de um grupo chamado Queer Fiction. Neste filme, existe sexo explícito. Mas tudo parece fake, feito para escandalizar caretas, e, por isso, sem um maior efeito de choque.
Mas nem só de avanços se alimenta o cinema, não é mesmo? Muitas vezes ele se alimenta, e muito bem, justamente do oposto, do retrocesso, do respeito a quem desbravou terrenos e criou uma dramaturgia impecável. Ignorar essa tradição, mesmo que se queira transgredir formas, é um vacilo imperdoável.
Um belo exemplo desse respeito pode ser percebido no único dos bons filmes que passaram que eu não citei até agora: Singularidades. Produto de uma oficina de vídeo de Curitiba, impressiona pelo respeito aos entrevistados e ao que a câmera constrói como espaço cênico. Prova de que nem sempre quem está aprendendo fica atrás de quem já está na ativa há tempos.
Nos longas, deu para confirmar a excelência de Onde Andará Dulce Veiga?, belo filme de Guilherme de Almeida Prado; a insipidez de Casa de Alice, filme muito elogiado de Chico Teixeira, e a confirmação de que Marlon Riggs tem um cinema ativista (pró gays e negros) de muito talento, como bem demonstrou seu Línguas Desatadas.
O II For Rainbow serviu, também, para mostrar que é possível realizar filmes de qualidade com observação, atenção e paixão. Esse trinômio que parece esquecido por muitos medalhões.Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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