Cinema - Cultura - Comportamento
(Brasil,2008). De Walter Salles e Daniela Thomas. Com Sandra Carvaloni, José Geraldo Rodrigues, Vinicius de Oliveira. Universal. 108min.
(EUA,2008). De Phyllida Lloyd. Com Amanda Seyfried, Meryl Streep, Pierce Brosnan. Universal. Projeção:2.35:1. 108min.
Ousadia impetuosa ou heresia suprema juntar estes dois equívocos numa mesma crítica? São tão diferentes entre si que impossibilitariam um texto em conjunto? Seria não dar valor ao produto nacional, equiparado sem cerimônia ao pior do cinema internacional? Sinceramente, esse papo já me dá engulhos não é de hoje, e não me importo se este texto incomodar muita gente. A crítica tem mais é que incomodar mesmo, ser petulante, ás vezes, para ser mais incisiva quando se declara apaixonada por algo, externar sentimentos, decepções, gritar por revolta, exigir maior cuidado dos que fazem filmes - escrevendo ou filmando, tanto faz. Talvez o cinema brasileiro esteja esta lambança incrível por causa das passadas de mão na cabeça, da postura condescendente de muita gente. E, convenhamos, Walter Salles é muito inferior como cineasta do que muitos querem fazer crer, mas seria capaz de algo muito melhor do que Linha de Passe. Compará-lo a um subproduto vergonhoso como Mamma Mia é tentar lidar com uma decepção tremenda que tem me atormentado quando o assunto é cinema brasileiro, e quando muitos se esquecem que o bom, aqui, é exceção. Mais: os filmes guardam semelhanças de procedimentos muito claras para que se deixe barato. Como dizem os sábios populares, ajoelhou, tem que rezar.
Vamos, pois, às comparações. Em Mamma Mia, de Phyllida Lloyd, a chegada das amigas da noiva na ilha grega são acompanhadas de coreografias começadas por uma e completada por outras, sacramentando a sintonia que resiste à distância entre elas. Quando chegam as amigas da mãe interpretada por Meryl Streep, acontece a mesma coisa: mesma coreografia juvenil, mesmo número de amigas (duas), mesma infantilidade na busca por uma cumplicidade a qualquer custo. Em outro momento, sabemos que cada um dos três pais possíveis terá a revelação, consecutivamente, durante a festa de despedida de solteiro, e é exatamente o que acontece. E, claro, a idéia de que ninguém pode terminar o filme sem um par. Todos tem que se dar bem, mesmo que o personagem de Colin Firth tenha que se descobrir homossexual, numa cena pavorosa e politicamente correta de provocar vômitos.
Essa continuidade de comportamentos é extremamente previsível, e revela o quanto há de esquemático no roteiro. Mas creio que nem passou pela cabeça dos envolvidos esconder esse esquematismo. Porém, a simples afirmação de uma condição óbvia não redime coisa alguma, sejamos claros. E Mamma Mia se assume como a quintessência da obviedade em quase todos os planos. Além do mais, nunca as coreografias foram tão mal encenadas dentro de um filme musical. Por isso, o filme além de nulo é brochante e irritante
No filme de Walter Salles e Daniela Thomas, também existe uma série de continuidade de comportamentos. Uma infindável e grosseira relação entre tudo que vemos na tela, como se o filme fosse um exercício de algum aluno inexperiente de uma oficina de roteiro.
O irmão mais velho é fominha durante uma peneira futebolística. Fica claro que ele joga muito bem, mas não tem espírito de equipe. É um individualista incorrigível, aparentemente. Mais tarde, o irmão mais novo está jogando futebol na escola. Como esperávamos, ele também é fominha, e também levanta a ira de companheiros de equipe por seu individualismo.
O mais velho termina, depois de muito brigar, tendo sua chance. O mais novo tem seu escape, uma espécie de homenagem canhestra ao clássico Os Incompreendidos, de Truffaut, e ao excelente A Ilusão Viaja de Bonde, de Buñuel. Homenageando alguns de seus heróis, Salles e Thomas parecem reverenciar o que de melhor se fez no cinema, mas estão na verdade lambusando as mãos com algo que não compreendem, pois do contrário teriam evitado a penca de lugares comuns existentes em Linha de Passe.
Paralelismos como esse dos irmãos existem no filme inteiro, e a memória seletiva, graças a Deus, apagou boa parte do que me deixou revoltado na sala de exibição. Dá até para dizer que o filme é feito unicamente com esse recurso um tanto pobre quando usado sem economia. A montagem paralela, no caso, serviria para reforçar o espelhamento de personagens - os quatro irmãos, filhos de diferentes pais e da mesma mãe - e situações - a luta contra a pobreza do dia-a-dia. Aliás, a insistente montagem paralela insinua uma série de coisas abomináveis, como por exemplo que dirigir ônibus é algo hereditário, ou que patroas não podem ser boas nem quando querem ser legais, ou ainda que a sociedade e as injustiças do mundo acabam levando os pobres ao crime.
Esse tipo de humanismo de armazém me irrita profundamente. Seria melhor que Salles fizesse um cinema de rico, mostrando a elite, que é o que ele conhece. Quando se mete a defender os pobres, a mostrar, com certo desdém e espezinhamento disfarçados de sociologia, que a vida deles é sofrida e injusta, se complica, invariavelmente. Era essa demagogia que ameaçava afundar Central do Brasil o tempo todo, e até mesmo seus dois melhores filmes, O Primeiro Dia e Terra Estrangeira, ambos, por sinal, co-dirigidos por Daniela Thomas. Mas de alguma forma os filmes antigos se sustentam, seja por uma paixão visível pelo cinema, seja por um amadorismo que impedia que o descaramento humanista prevalecesse. Agora, Salles já domina a forma de capitalizar suas nobres intenções, mas não sua consciência pesada de menino rico. Pior para o cinema.
Reveja o filme, Sérgio. Posso até rever, pois como todo mundo tenho minha parcela de masoquismo. Mas só depois de muito tempo, pois filme ruim, como já se disse, faz os olhos apodrecerem, e eu prefiro ficar em casa vendo Mizoguchi para recuperá-los da overdose de mau cinema proporcionada por Salles, Meirelles e Lloyd.
Talvez Linha de Passe seja muito mais nocivo que Mamma Mia, pois se passa por um filme necessário, humanista, quando é apenas raso, previsível, esquemático e pobre, muito pobre, na dramaturgia - o prêmio para a atriz foi, sim, um exagero dos jurados em Cannes, e a atuação dos quatro filhos, com a exceção do que vira pastor, está bem aquém do que se espera de um filme que circula em festivais internacionais sem vergonha de ser o que é.
Ao contrário de Mamma Mia, que constrange pelos excessos, e por uma completa falta de imaginação, aliados a um completo desconhecimento do que é, já foi, ou pode ser o cinema, mesmo quando a alegria inconsequente está em primeiro plano, Linha de Passe constrange por achar que o espectador vai necessariamente engolir qualquer coisa que se passe por boa vontade. Talvez Salles precise, de verdade, para o seu bem e de todo o cinema brasileiro, de uma boa chacoalhada, sem luvas de pelica, mas com sinceridade e paixão, o contrário do que muitos críticos têm feito. Sim, a paixão pelo cinema provoca também textos raivosos, sem medo de ferir egos inflados ou cineastas que poderiam render muito mais.
Sérgio Alpendre
Revista eletrônica semanal de cinema
Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre
Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria
Programação visual: Renan Fogaça
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