Retrospectiva Irmãos Taviani



 

Das várias restrospectivas que acontecem no Festival do Rio, tenho acompanhado, de longe, a dos irmãos Taviani. Por que de longe? Porque vi ano passado, em São Paulo, Sob o Signo de Escorpião, um desastre, e Os Subversivos, curioso estudo do panfleto político. Aqui no Rio, pude finalmente conhecer um de seus trabalhos mais elogiados, Um Grito de Revolta, o famoso San Michelle Aveva un Gallo, que é, de fato, um grande filme. Parece uma resposta aos filmes mais herméticos dos anos 60, e à própria filmografia anterior dos irmãos. Incrível como depois Francesco Rosi cairia na armadilha e faria o patético Cristo Parou em Eboli, espécie de negativo deste clássico dos Taviani.

Um Grito de Revolta respeita a loucura do personagem como se fizesse um movimento pendular, aproximando-se e afastando-se dele conforme busca um melhor ângulo para compreendê-lo. A narrativa o segue de perto, de longe, ou indiretamente, como quando vai para o barco dos outros prisioneiros, que navegam paralelamente ao dele. Ele está presente em espírito, mas ausente no quadro. Presente porque sabemos que falam dele, olham para ele de vez em quando, como se quisessem nos fornecer uma matiz mais sutil de sua personalidade, entender o porquê de sua radicalidade, de sua falta de ouvidos para outros métodos de luta política. O prisioneiro se torna tão solitário à medida que os queixosos se tornam cada vez mais políticos. Se não há mais espaço para ele no mundo, resta a solução mais drástica, que vem como se fosse a mais leve possível. Mérito dos irmãos, naquele que pode muito bem ser o melhor filme deles.

Revi também o clássico Pai Patrão, e a memória não dava conta de que fosse um filme tão brilhantemente errado, cheio de cortes bruscos - se assemelhando a imposições de censores ou distribuidores - de encenações cruas, com ausência de ornamentos, cenários pobres e tal. Bem a calhar para uma obra que busca retratar parte da vida de Gavino Ledda, autor do livro, da infância à juventude, da quase escravidão familiar às tentativas de estudar. Um momento para se reter: Omero Antonutti, brilhante durante toda a projeção, se contendo inicialmente para não acarinhar o filho, milésimos de segundo depois para não esmurrá-lo. Só por essa cena o filme já merece muito mais atenção do que vem recebendo dos cinéfilos que estão eternamente aprisionados pela tal da contemporaneidade. Vamos ver se na repescagem os irmãos tem mais chance de atrair um público decente, que poderá descobrir obras que, estranhamente, permanecem ricas, ainda que datadas. Mas eu já disse mais de uma vez que isso não pode ser um problema, não é?
Sérgio Alpendre

 

 

 

Revista Paisà

Revista eletrônica semanal de cinema

Editada por Filipe Furtado e Sérgio Alpendre

Redatores: Alexandre Carvalho dos Santos, Allan Peterson, Bruno Amato Reame, Bruno Andrade, César Zamberlan, Cléber Eduardo, Eduardo Valente, Fernando Watanabe, Francis Vogner dos Reis, Francisco Guarnieri, Gilberto Silva Jr., Guilherme Martins, José Oliveira, Juliano Tosi, Leonardo Luiz Ferreira, Liciane Mamede, Lila Foster, Luiz Carlos Oliveira Jr., Luiz Soares Junior, Marcelo Miranda, Paulo Santos Lima, Ruy Gardnier, Tatiana Monassa, Tiago Faria

Programação visual: Renan Fogaça

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